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Conferência Nacional de Comunicação, antes tarde do que nunca
Por Laurindo
Lalo Leal Filho* - 25/03/09
Bastou o governo confirmar a Conferência Nacional de Comunicação e a
campanha contra começou. E a ordem veio de cima, bem de cima: da associação
internacional dos donos da mídia no continente, conhecida pela sigla SIP
(Sociedade Interamericana de Prensa).
No Brasil, comunicação sempre foi um não-assunto. Contam-se nos dedos os
jornais que, em algum momento, abriram espaço para uma reflexão crítica a
respeito do próprio trabalho. Para o rádio e a televisão dispensam-se os
dedos, não há autocrítica. Se do conteúdo informativo pouco ou nada se fala,
sobre as lutas de seus trabalhadores o silêncio é total. Lembro uma campanha
salarial liderada pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná que espalhou
outdoors por Curitiba com a frase "a nossa dor não sai nos jornais". Naquela
época, anos 1980, as dores de outras categorias até apareciam em algumas
páginas, menos a dos jornalistas.
E os jornalistas, além das suas dores e angústias profissionais, têm muito a
falar sobre a sociedade e os meios de comunicação. Muito mais do que seus
patrões permitem. Claro que há jornalistas e jornalistas, como lembrou em
artigo exemplar nesta página Marcelo Salles. São, de um lado, os que estão
comprometidos com as imprescindíveis e necessárias transformações sociais e,
de outro, os ventríloquos dos que lhes pagam altos salários no fim do mês. A
maioria ganha pouco, trabalha muito e tem que ficar quietinha cumprindo as
pautas determinadas pelos interesses empresariais.
Essa divisão se já era bem nítida, agora escancarou-se diante da anunciada
realização da Conferência Nacional de Comunicação, reivindicação histórica
de vários setores da sociedade. Bastou o governo confirmar o evento, a
campanha contra começou. E a ordem veio de cima, bem de cima: da associação
internacional dos donos da mídia no continente, conhecida pela sigla SIP
(Sociedade Interamericana de Prensa). A entidade se diz preocupada "porque
os debates (na Conferência) serão conduzidos por ONGs e movimentos sociais
que pretendem interferir no funcionamento da imprensa?. Expressão que pode
ser traduzida pelo temor diante da possibilidade de um debate mais sério e
aprofundado sobre o pensamento único imposto pelos grandes meios de
comunicação aos nossos países. Afinal, debates como o proposto podem
conduzir a ações práticas, capazes de impor limites a esse poder
incontrolado.
Do lado patronal dificilmente sairia posição diferente, afinal estão
defendendo interesses de classe seculares. O triste é constatar que enquanto
centenas de trabalhadores da mídia mobilizam-se em todo o Brasil a favor da
realização da Conferência, uns poucos jornalistas e radialistas, agem em
sentido contrário. Caso emblemático é o de um âncora e de uma repórter da
rádio CBN que usaram longos minutos da programação para ecoar pelo país as
posições dos seus patrões. Usavam o velho procedimento dos comunicadores
populares, decodificando para grandes audiências as concepções ideológicas
de quem lhes paga os salários. Esbanjando informalidade, usando a
ridicularização como arma, eles levam ao ouvinte as mesmas idéias que os
jornais apresentam de forma mais elaborada, nos editoriais ou nas colunas
dos seus articulistas. Colaboram, dessa forma, para popularizar as idéias da
classe dominante tornando-as dominantes em toda a sociedade, como já notava
aquele pensador do século 19, cada vez mais atual.
Mas há resistência. Rapidamente os sindicatos dos jornalistas do Distrito
Federal e do Estado do Rio de Janeiro foram a público repudiar a posição da
SIP e dos seus porta vozes nacionais. Os jornalistas do DF através de sua
entidade perguntam "O que pretendem os grandes empresários da comunicação?
Pressionar o governo para retirar o apoio à Conferência, facilitando assim a
manutenção intacta dos oligopólios que dominam, e que manipulam a
informação, em detrimento do interesse público". E os fluminenses afirmam:
"A nossa entidade não pode silenciar diante do posicionamento pouco
democrático manifestado pela SIP. É preciso deixar bem claro que o patronato
mente quando diz que defende a liberdade de imprensa, pois está, isto sim,
defendendo de fato a liberdade de empresa, que não aceita a ampliação dos
espaços midiáticos a serem ocupados pelos mais amplos setores
representativos do povo brasileiro, como são os movimentos sociais".
Apesar das pressões, não há dúvida que a Conferência vai sair. Pelos estados
já se realizam conferências regionais preparatórias para o encontro nacional
marcado para o começo de dezembro, em Brasília. Diante do fato irreversível,
as entidades patronais tentam impor suas pautas ao debate. Segundo a Folha
de S.Paulo, para Paulo Tonet, da Associação Nacional de Jornais, discutir
monopólio e propriedade cruzada é um retrocesso. Para ele o tema tem que ser
"conteúdo nacional e igualdade de tratamento regulatório". Mais uma frase
que precisa tradução: ele quer dizer que a Conferência só deve tratar dos
interesses das empresas de rádio e televisão, preocupadíssimas com a entrada
no mercado de radiodifusão das operadoras de telecomunicações.
E parte para o sofisma ao chamar de retrocesso a discussão em torno do
monopólio e da propriedade cruzada dos meios de comunicação, sem dúvida a
maior chaga existente na comunicação social brasileira. Não há como
democratizá-la sem que se enfrente com determinação esse obstáculo.
O tema geral da Conferência será "Comunicação: Direito e Cidadania na Era
Digital". Amplo o suficiente para caber tudo. Daí a importância da
mobilização nacional, necessária para impedir que os interesses empresarias
da mídia se sobreponham aos da sociedade. Conferências de outros setores,
como saúde, educação e direitos humanos, por exemplo, tem sido decisivas
para o encaminhamento das respectivas políticas
públicas. A da comunicação não pode fugir à regra.
Fonte: Agência Carta Maior
* Laurindo Lalo Leal Filho é sociólogo, jornalista e professor de
Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade Cásper Líbero. É autor, entre outros,
de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus
Editorial).
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