A Copa das falácias

A Copa das falácias

Por Roberto Ponciano – Mestre em Filosofia

Este artigo é de inteira responsabilidade do autor, não sendo esta necessariamente a opinião da diretoria da Fenajufe

Ontem vi um cartaz que me deixou intrigado: “Rocinha não quer teleférico, quer saneamento básico”. Demorei uns 10 minutos para tentar entender o que tem uma coisa com a outra, porque até no orçamento do governo, as verbas para saneamento saem de uma rubrica que não atrapalha e não influencia obras de Mobilidade Urbana.

Das duas, uma: ou quem pintou aquela coisa não era da comunidade, realmente, ou é uma pessoa iludida o suficiente para escrever uma asneira daquelas.

Ora, no momento em que a sociedade se organiza por Mobilidade Urbana, teleféricos são soluções por demais inteligentes para a topografia da cidade. Fico imaginando alguém que possa ser contra um teleférico numa favela. O cara que escreve uma asneira dessas nunca utilizou o teleférico do Alemão. Perguntem a alguém, no Morro do Alemão, se abriria mão do teleférico instalado, que uniu a comunidade do Morro do Adeus à Fazendinha, com 3,5 km de extensão. Às crianças que têm facilidade para ir à escola, aos trabalhadores, facilidade de ir trabalhar, às famílias que se unem com o único meio de transporte que serve à toda a comunidade.

É muita pretensão de quem confeccionou tal faixa, que ilustra, hoje, as manchetes do “PIG”. Alguém perguntou à comunidade? Fizerem um plebiscito na Rocinha e na Providência perguntando se querem ou não o teleférico? Se der um resultado menor que 80%, depois de um debate sério, eu troco de time.

E o pior: no momento em que a Rocinha, além do teleférico, vai receber um grande aporte de investimentos exatamente em rede de esgoto e moradia, será que os organizadores do tal evento omitiram isso por desconhecimento ou por pura má-fé? Veja o que está anunciado e está previsto, orçado no PAC: “O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2) terá R$ 2,66 bilhões em investimentos para as comunidades da Rocinha e para os complexos do Lins e do Jacarezinho. Entre as intervenções, estão previstas obras de macrodrenagem de esgoto e água, instalação de rede coletora de lixo, abertura e alargamento de vias, além da construção de creches e de 475 unidades habitacionais.” (Fonte: http://blog.planalto.gov.br/ao-vivo-anuncio-de-investimentos-em-comunidades-do-rio-de-janeiro/)

Bem, vamos sair deste falso paradoxo de Zeno, da tartaruga e de Arquimedes. Eu quase choro de rir quando vejo algumas bobagens que saem nas manifestações sobre a Copa do Mundo, no pior estilo, “não queremos Copa, queremos Saúde e Educação”. Em primeiro lugar, não queremos, quem, “cara pálida”? O “nós” é um plural majestático muito pretensioso. Quem não quer copa? Os estudantes radicais da sigla A, B ou C? Quem lhes deu o direito de usurpar a vontade popular? O governo deveria fazer um plebiscito, com um debate claro sobre a Copa do Mundo e, de novo, ganharia de lavada. Primeiro porque é novamente uma bobagem teórica opor Copa contra Saúde e contra Educação. Tenho visto poucos, ou nenhum, argumentos sofisticados com relação a isso. Primeiro porque o governo não está retirando verba da Saúde e da Educação para fazer Copa do Mundo. Investimento puramente na Copa serão somente os estádios que, queiram ou não os anticopa, também ficarão como legado. Tirando os estádios de Manaus, Brasília e Cuiabá, que são elefantes brancos sem viabilidade financeira para o futebol, todos os outros serão praças utilizáveis após a Copa do Mundo, o custo total deles (está no Portal da Transparência) é de 7 bilhões de reais em anos anos! Não chegam a dois bilhões por ano e não foram os estádios que cortaram verbas, nem da Saúde e nem da Educação. Seja-se o quadro retirado do Portal da Transparência:http://www.portaltransparencia.gov.br/copa2014/empreendimentos/investimentos.seam?menu=2&assunto=tema

Lá, muitas pessoas se surpreenderão ao ver que o Brasil gastará apenas 7 bilhões com estádios e os restantes, 21 bilhões, serão, principalmente, com transporte: aeroportos, “Mobilidade Urbana”, BRTs, VLTs, Metrô, vias expressas que são legados permanentes indiscutíveis. É divertido ver gente ir para a rua e reclamar por Mobilidade Urbana sem saber que os maiores gastos com a Copa serão nela, na Mobilidade Urbana! Ou seja, é um falso problema, haja vista que esses 21 bilhões gastos com a Copa do Mundo, na verdade não serão gastos com ela, mas na modernização de portos, de vias, de aeroportos, com BRTs, abrindo vias, ampliando portos etc. Será que alguém que fica repetindo a cantilena dos 30 bilhões gastos com a Copa do Mundo tem alguma ideia disso?

Para terminar, nessa semana o governo Dilma anuncia mais 50 bilhões em Mobilidade Urbana e aprova o projeto para ampliar os gastos com Saúde e Educação através dos royalties do petróleo: 200 bilhões para a Educação e 50 bilhões para a Saúde! Um gasto recorde, nunca, jamais, alcançado por nenhum governo. Isto se junta aos dois milhões de universitários já assistidos pelo Prouni, aos 26 novos campi universitários, às dezenas de escolas técnicas, as UPAS, aos novos hospitais, Clínicas de Família que tal governo fez em todo esse tempo. O gasto com Saúde e Educação ultrapassa em 49 vezes por ano o que o governo gastou com estádios da Copa do Mundo.

Assim, os argumentos, filosoficamente falando, são realmente falaciosos. São de uma montagem tão superficial que não resistem à um mínimo questionamento. Sequer econômico. O gasto com a Copa, sendo com estádios apenas sete bilhões e os restantes, 21 bilhões, com infraestrutura permanente para o país, vão ser remunerados por uma receita que pode chegar a 150 bilhões de reais. Todavia, as projeções de retorno financeiro para o país durante e após o evento, miraculosamente sumiram das páginas de jornais e revistas da chamada “mídia hegemônica” que lucra, como nunca, com o evento, repassando imagens e notícias, mas finge que o evento dá prejuízo, porque quer lucrar ainda mais com a desestabilização do país.

Teve um respeitável amigo que disse, inclusive, que é contra toda e qualquer Copa do Mundo, porque a Fifa é uma máfia. Tenho que confessar que esse é um argumento respeitável. Mas, se esse é o argumento, o certo não é protestar contra a Copa no Brasil, mas contra a existência de toda e qualquer Copa do Mundo. Uma coisa é certa em Lógica: ao escolher seus termos, você tem que ir até às últimas consequências nele. Se for contra o negócio Copa do Mundo, tem que ser contra toda e qualquer Copa do Mundo. Mas não é esse o argumento, os protestos são contra a realização de uma Copa do Mundo no Brasil. Ora, nesses argumentos sinto uma espécie de “complexo de vira-latas”. Pelos números expostos, resta provado que, novamente:

1) “A Copa do Mundo no Brasil não é cara”. O gasto exclusivo, com ela, é de apenas sete bilhões. Desses sete bilhões, apenas três estádios não são viáveis. Todos os outros são e os particulares não recebem investimento público;

2) Dos chamados 30 bilhões, que viraram uma verdade absoluta (que agora passo a chamar de falácia absoluta), e que na verdade são 28 bilhões, 21 bilhões desse total são de valores permanentes no Brasil. BRTs, VLTs, Metrôs, vias expressas, aeroportos, portos, hotéis. Então não são investimentos para a Copa. São o legado permanente;

3) “A Copa não vai deixar legado”. Bem, essa não é falácia. É a mentira mais absurda de todas. Dos 28 bilhões, 21 são de instalações permanentes que não têm nada a ver com a Copa do Mundo. Todas as instalações ficarão em pleno funcionamento, em todas as cidades, após o evento. Espero que ao ler o artigo e ao conferir os números no Transparência Brasil, não repitas mais essas bobagens.

4) “A Copa retirou dinheiro da Saúde e da Educação”, com verbas sete vezes maiores do que a dos estádios em um único ano. Avalio que ninguém vá mais repetir essa baboseira. Não? O problema da Saúde no Brasil não é a Copa. E, muito menos o da Educação. Há o paradoxo de termos em alguns lugares verbas e o hospital e faltarem médicos que não querem trabalhar no interior. Um paradoxo absoluto e invencível em ser contra a Copa e ser, também, contra os médicos cubanos no interior. Outro paradoxo é reclamar contra o investimento da Copa pedindo mais investimento em transportes, que é o ponto forte dos gastos com a Copa.

Bem, se querem atacar esse artigo, tenham todo o direito, mas, por favor, coloquem argumentos válidos. Argumentos falaciosos ou mentirosos, termos deslocados, teoria do perde-perde, números falsos, falsas oposições não são fortes o bastante para refutá-los. Muito menos maniqueísmos do tipo “a Saúde é uma merda”. Falar isso é uma reclamação, não um argumento. Querem discutir o SUS, peguem números, peguem a distribuição de hospitais, as UPAS, as Clínicas da Família, quantidade de recursos e verbas e façamos uma discussão séria. “Resmunguices de tia velha na janela” não são argumentos e apenas alimentam um movimento que não tem pauta, não tem direção, é contra tudo e contra todos e não tem projeto para mudar o Brasil.