A miséria da filosofia, a falta de ideologia leva a um pensamento vazio

A miséria da filosofia, a falta de ideologia leva a um pensamento vazio

Por Roberto Ponciano – Mestre em Filosofia e especialista em ética

 

Este artigo é de inteira responsabilidade do autor, não sendo esta necessariamente a opinião da diretoria da Fenajufe

 

Réplica ao artigo: A causa da degeneração do movimento sindical – o dogmatismo marxista ou marxismo dogmático

Li com espanto, um artigo que falava da degeneração do movimento sindical por conta de um suposto uso do marxismo, ou mal uso do marxismo. Não vou digressar sobre os maus e péssimos usos do marxismo, 90% dos que se dizem marxistas, ou nunca leram ou leram muito mal Marx, e se dizem marxistas por se vincularem a partidos de viés ideológico marxiano.

Mas efetivamente o artigo que tenta ligar uma coisa a outra não prova nem o nexo causal, nem que o sindicalismo degenerou. Seria como uma silogismo falacioso, do tipo.

Todo sindicalismo com base no marxismo degenera.

O sindicalismo que se prática na Fenajufe tem base no Fenajufe tem base no marxismo;

Logo o sindicalismo da Fenajufe degenerou.

A questão é que as duas premissas, embora válidas, tem que ser provadas para que o pensamento seja verdadeiro, se não temos, sendo o pensamento verdadeiro ou falso uma falácia.

E o artigo não prova nem uma coisa e nem outra. Primeiro porque o sindicalismo não tem origem no marxismo, é o marxismo que tem uma de suas origens no sindicalismo. São três as raízes do pensamento marxista: a) A filosofia clássica alemã; b) O socialismo francês; c) O sindicalismo inglês. Ora, o sindicalismo inglês estava longe de ser revolucionário.

Quando da fundação da primeira internacional dos trabalhadores, o movimento sindicalista estava mais influenciado pelo anarco-sindicalismo e pelos lassaleanos, do que por um marxismo ainda nascente.

Não vou aqui contar toda a história do movimento sindical – que nunca redundou num movimento sindical claramente marxista, desde seu início dividido entre marxistas, anarquistas, tradeunistas ingleses partidários de melhorias graduais, social democratas, mas pelo pouco que se vê, é fácil provar que ele não teve uma única raiz e que o marxismo foi só uma das suas influências, das outras muitas, entre elas o sindicalismo de resultados, que não foi inventado no Brasil, vide AFL-CIO estadounidense e o sindicalismo democrata cristão.

Bem, fica claro que há marxismo sem sindicalismo e sindicalismo sem marxismo, embora haja área de hachuras, um e outro não é a mesma coisa. Então a primeira premissa, sobre todos os pontos de vista, é FALSA.

A segunda premissa é ainda pior. O Sindicalismo que se prática na Federação tem base marxista. Bem, não sei de onde tiram estas idéias, talvez porque haja marxistas na Fenajufe (eu sou um deles), mas também há católicos (a Fenajufe é católica?), espíritas (a Fenajufe é espírita?), candomblecistas (a Fenajufe é uma panteão dos orixás?), social democratas (a Fenajufe é social democrata?), em resumo, toda a variedade de crenças e ideologias que há no mundo da base da Federação.

Não há nenhum nexo causal que prove que em algum momento a Fenajufe foi, é ou será marxista. Na verdade, causa estranheza mesmo que o autor do texto seja um dos que votaram numa tese de conjuntura, nacional e internacional, de uma corrente marxista, o PSTU, para depois tentar mostrar talvez que TODOS NA FENAJUFE SÃO MARXISTAS. O que evidentemente é mais que uma falácia, é uma mentira. Marxistas, sociais democratas, liberais, todos disputam PROJETOS NA FENAJUFE.

Derrubadas as duas primeiras premissas não resta muita coisa não da bobajada que foi escrita, mas mais do que premissas falsas (são válidas, mas falsas) e uma conclusão falsa, a conclusão não tem nenhuma relação com qualquer fato.

Dizer que as teses sobre Feuerbach são a base marxista da Federação é pegar algumas axiomas de Marx ao acaso, tentar provar erudição, para bancar o experto e não provar nada. Ora, que tese de Marx sobre Feuerbach é aplicável á Fenajufe? A primeira? A última? Em qual delas se baseia a “explicação” do autor?

Em nenhuma, é apenas um blefe, que pode impressionar quem não conhece Marx (não é o meu caso, sou especialista em Marx, minha dissertação de mestrado, defendida em uma banca com dois PHDs[1], um do College de France e outro da Universidade de Moscou é sobre ele), quem não conhece filosofia, quem não conhece sindicalismo, quem não conhece nada e se impressiona com um blefe tolo como este, do tipo, a prova disto está nas “Teses sobre Feuerbach”.

Com o mesmo pensamento raso eu poderia “provar” que a Fenajufe é cristã, citando os dez mandamentos e dizendo, a Fenajufe é cristã porque todos lá seguem os dez mandamentos. Uma bobagem tão fútil ou vazia quanto a anterior. O único motivo de o autor citar Marx e alimentar um certo anti-marxismo de mesa de bar.

Vou colocar como anexo nesta tese meu trabalho sobre as teses de Feuerbach.

Por último, a asserção de que o “sindicalismo degenerou”, é uma asserção moral, com ligação com o marxismo. O que resultaria numa relação causal do tipo, o sindicalismo degenerou por conta dos marxistas degenerados, o que é uma bobagem tautológica imensa.

Com razão diz o ditado, que até para negar a filosofia é preciso conhecer filosofia, é preciso filosofar. Ao autor da tautologia lhe falta os conhecimentos básicos de lógica, e junta um monte de pensamentos dispersos para provar algo que em nenhum lugar do texto ele aduz provas.

Ora, há sim uma crise sindical, mas todos os grandes especialistas nesta área, como Ricardo Antunes, Gaudêncio Frigotto, Emir Sadder, Márcio Pochman, apontam para o outro lado, a crise no Mundo do Trabalho. A crise do emprego formal e do setor produtivo levou a sindicalização no Brasil a cair de 35% para 18% e nos EUA em cair de 30% para insignificantes 3%. No mundo inteiro, a sindicalização não passa de 8%. E isto não tem nada que ver com “degeneração”, “marxismo”, “teses sobre Feuerbach”, tem que ver com a reorganização do setor produtivo, com a robótica, o toyotismo, a automação que desorganizou o mundo do trabalho, precarizando as relações formais de emprego colocando os sindicatos em xeque. È o que os especialistas chamam de Asianização do emprego, com a competição de países como China e Índia no aviltamento da mão-de-obra e nas condições de trabalho tanto no primeiro mundo como nos países periféricos.

O autor toma efeito (a crise sindical) como causa (a precarização do trabalho) e aí cria uma “novidade teórica” sem pé nem cabeça, que a “degeneraçãdo” sindical se deve aos “marxistas”.

Sem muitas delongas, o artigo é um engodo que só engana a quem quer ser enganado.

Para quem quiser acessar a tese, as teses sobre Feuerbach e a bibliografia, seguem os links:

http://sisejufe.org.br/portal_/images/stories/tese.pdf

Leia aqui “teses sobre Feuerbach” e bibliografia



[1] NORMAN MADARASZ, PHD da Universidade de Paris (Vincennes)  e PAULO SÉRGIO COSTA, PHD, Universidade de Moscou.