Pesquisa de mestrado: PJe alterou condições de trabalho e modificou fatores de risco que explicam as queixas de dores de servidores da 15ª Região

No final do mês de julho, o servidor Fauzi El Kadri Filho, fisioterapeuta da Secretaria de Saúde do TRT-15 há 13 anos, teve sua dissertação de mestrado “Sintomas Osteomusculares, Fatores Psicossociais e Capacidade para o Trabalho no Contexto do Processo Judicial Eletrônico (PJe)” aprovada pela banca do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). A pesquisa, inédita no País, avaliou os efeitos do PJe na saúde dos servidores da 1ª instância do Tribunal a partir da participação de 449 servidores.

De acordo com o autor do estudo, o PJe alterou o modo de trabalho dos servidores, o que levou a alteração dos fatores de risco tanto físicos quanto psicossociais. “Os riscos físicos estão ligados ao mobiliário e equipamentos de trabalho e se relacionam aos movimentos repetitivos dos dedos e às posturas estáticas de ombros e pescoço exigidos no trabalho informatizado”, afirma Fauzi. Entre os fatores psicossociais do trabalho foram avaliados: “demanda de trabalho”, “controle sobre o trabalho”, “apoio da chefia”, “apoio dos colegas”, “relacionamentos”, “definição do cargo” e “comunicação e mudanças”.

Com base nos questionários, as maiores queixas dos servidores são em relação a dores em punhos/mãos, ombros e pescoço. De acordo com Fauzi, esses sintomas acontecem mesmo com condição física de trabalho adequada, “à medida que o trabalho com computador associado à tensão psicológica, gerada por metas e cobranças de prazos potencializam essas queixas”. Tanto que entre as dimensões psicossociais, “demanda de trabalho” e “controle sobre o trabalho” apresentaram os piores resultados. Do público pesquisado o uso do PJe atingiu 83% da carga horária diária média de trabalho. O PJe acelera o ritmo e faz com que o servidor tenha menor autonomia quanto ao modo de realizar o trabalho, o que acaba afetando especialmente aqueles servidores que já possuem quadro de dor osteomuscular, tornando mais difícil sua recuperação. A pesquisa aponta que há uma correlação entre praticamente todas as dimensões psicossociais com a ocorrência de dor osteomuscular, reforçando a ideia de que estes fatores de risco são interrelacionados e que não só as condições físicas de trabalho devem ser abordadas no que se refere à prevenção dos distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORTs), mas também aspectos relacionados à gestão, especialmente quanto a “demandas de trabalho”, “controle sobre o trabalho” e “apoio dos colegas”.

“Do total dos participantes, 31,4% apresentaram capacidade para o trabalho baixa ou moderada (inadequada) e esta redução está em grande medida relacionada às dores osteomusculares, especiamente entre as mulheres, que apresentam maior volume de queixas”, informa Fauzi.

IMPLICAÇÕES DA PESQUISA
Segundo Fauzi, as condições físicas de trabalho no TRT-15 estão continuamente sob supervisão conjunta da Diretoria Administrativa e da Secretaria de Saúde, tendo sido alcançado um padrão elevado quanto à adequação ergonômica do mobiliário e dos equipamentos de trabalho. Além disso, é preciso abordar também fatores psicossociais do trabalho visando à redução das queixas dolorosas e à manutenção/melhora da capacidade para o trabalho dos servidores. “Cabe aos gestores em todas as instâncias do Tribunal, diante da elevada carga de trabalho imposta às suas unidades, promover ações que estimulem o apoio entre os colegas e a autonomia dos servidores quanto ao modo de lidar com essa sobrecarga, como por exemplo a adoção de pausas para descanso”. Nosso Tribunal tem uma recomendação de 2014 orientando sobre estas pausas, mas a maioria dos servidores referem que é difícil cumpri-la, portanto é preciso adotar novas estratégias para o estímulo desta prática, preferencialmente associada à realização de exercícios de alongamento. “Elevada demanda de trabalho associada à reduzida autonomia se relacionam à ocorrência de dores osteomusculares, que levam à redução da capacidade para o trabalho, isso quando não ocasionam afastamentos para tratamento, o que afeta a produtividade. Portanto, faz mais sentido pensarmos em servidores com maior autonomia, sem dores e produzindo mais no longo prazo, ainda que no curto prazo possa parecer contraproducente.”

IMPORTÂNCIA
O Sindiquinze apoiou a pesquisa para que fosse possível ter um panorama geral sobre a saúde dos servidores da 15ª Região e para saber quais medidas preventivas podem ser colocadas em prática com base no que foi apurado cientificamente. E também porque o estudo é de vanguarda, não tem nenhum paralelo, tanto do ponto de vista acadêmico nacional como no âmbito do Judiciário.

Fauzi apresentou parte da pesquisa no 18º Congresso de Stress da ISMA-BR, no 20º Fórum Internacional de Qualidade de Vida no Trabalho, no 10º Encontro Nacional de Qualidade de Vida no Serviço Público e do 6º Encontro Nacional de Responsabilidade Social e Sustentabilidade que abordam temas relacionados à saúde e ao trabalho.

Para a tese de doutorado, ele pretende ampliar o estudo na 15ª Região, incluindo servidores da 2ª instância, com especial interesse nos efeitos do teletrabalho sobre a saúde física e mental. “Nós precisamos estar atentos às mudanças no modo de trabalho, especialmente no que se refere às novas tecnologias, pois ao mesmo tempo em que promovem celeridade aos processos de produção, levam a mudanças também nos fatores de risco ocupacionais, os quais precisamos conhecer em profundidade para que seja possível propor intervenções preventivas mais adequadas”.