Regime ultra-capitalista piorou a vida na França, diz cidadão daquele país

Regime ultra-capitalista piorou a vida na França, diz cidadão daquele país


Ainda nesta semana o Governo deve encaminhar ao Congresso Nacional a proposta da Reforma Administrativa, que, entre outras medidas, visa acabar com a estabilidade do servidor público e extinguir a garantia de irredutibilidade salarial.

Diante deste cenário de ataque aos direitos dos servidores públicos, a partir de hoje o SINDIJUFE-MT publicará uma série de matérias sobre estes temas, com um olhar sobre a situação dos servidores públicos em alguns países do mundo, começando pela França.

O aposentado Laurent Dubois, residente em Marselha, na França, diz que acompanha, diariamente, as notícias do mundo e sabe, inclusive, o que acontece no Brasil dos dias atuais, que segundo ele não é muito diferente do país dele.

 "Enfraquecer os serviços públicos também está sendo uma tendência na França. O que se passa aqui hoje  é bem significativo da tendência de muitos governos que se sucederam no poder tentando destruir o que os trabalhadores e a sociedade em geral conseguiram construir em termos de direitos durante décadas ou mesmo séculos”, observa.

Conforme informou, na França os servidores públicos são bem conceituados junto à população, inclusive porque, na maioria das províncias do interior não existe anonimato entre as pessoas, como normalmente existe hoje nas grandes cidades. Entretanto, muita coisa estaria mudando rapidamente por lá, desde a chegada de Emmanuel Macron ao poder.

“Percebe-se que o Governo dele não dá importância nenhuma ao setor público. Ele avança perigosamente em direção a um capitalismo a favor dos mais privilegiados e dos mais ricos. Mas um bom serviço público realmente tem que servir às classes menos favorecidas. É por isso que, durante essas décadas na França,  conseguiu-se muitos avanços em termos sociais, porém o que Macron quer fazer é tornar o país uma grande empresa, e para isso está privatizando tudo em vez de valorizar a eficiência dos servidores".

Pelas declarações de Dubois,  o governo de Macron está  claramente suprimindo os serviços públicos, e esta tendência estaria sendo observada em muitas instituições da França.  “Vejo que  os serviços básicos à população,  que são necessários, estão desaparecendo, e com isso a vida se torna mais difícil e, ao mesmo tempo, um anonimato total”, lamentou ele, complementando que atualmente os trabalhadores franceses têm que viver como máquinas, precisam render.

Até mesmo a receita federal francesa estaria desaparecendo. “Ficarão apenas algumas unidades urbanas, e dessa forma se abandona grande parte do território. Em breve não existirá serviço público no interior da França, e sem serviços públicos as pessoas do interior do país ficarão isoladas".

Para Dubois, entretanto, os serviços públicos são muito importantes na França, desde o sistema educacional ao sistema da seguridade social. "Macron defende que o serviço público vise lucro como na iniciativa privada. Eu diria que o capitalismo está levando a humanidade a um final triste, porque neste sistema não existe limite para a destruição de seu próprio meio ambiente e de seu próprio barco. Quando se pensa que o nosso planeta é como um barco, os capitalistas fazem de tudo para comer esse barco e produzir mais dinheiro."

Um dos setores que mais está sofrendo as conseqüências deste governo a serviço do neoliberalismo seria o  da saúde. "Tínhamos um modelo de nível mundial para atendimento e cuidado das pessoas. Hoje, porém, nas mãos de Macron até a saúde tem que ser rentável”.

Para isso, uma de suas primeiras medidas do governo francês foi diminuir  o número de funcionários nos hospitais e nos consultórios. Segundo as informações, onde antigamente um paciente era atendido em 2 ou 3 dias, hoje se leva meses para conseguir uma consulta. Nos hospitais públicos o atendimento é gratuito, mas por trás da gratuidade tem a contribuição mensal obrigatória para a instituição.

Para ser rentável como o Governo deseja, as instituições públicas francesas tiveram que se adequar, eliminando funcionários e sobrecarregando os servidores que permanecem em serviço.  Por este motivo, segundo Dubois,  hoje existe um forte movimento de contestação por conta dos servidores públicos da saúde, e     quem pode acaba se transferindo para outros países. “A França está se tornando um deserto médico. Atualmente metade das municipalidades francesas não têm mais médicos para atender a população, a não ser médicos estrangeiros que prestam serviços privados”.

De acordo com o nosso entrevistado, hoje na França uma consulta médica dura poucos minutos. “O  médico sabe que atrás de mim tem dezenas de pacientes. No serviço de emergência é a mesma coisa. As pessoas são mal atendidas e são acomodadas nos corredores”.

Dubois também falou das agitações no setor dos transportes públicos, especialmente o de trens. Macron quer acabar com as linhas de trem em que as locomotivas viajam com poucos passageiros e, por isso não são lucrativas. “Então, a missão social da companhia, que antigamente era de ir até os lugares mais isolados da França, para poder oferecer a todos, inclusive aos mais necessitados, um serviço público de qualidade, não vai mais existir. Mas desse jeito, quem vai querer continuar morando nas zonas rurais, se só vai existir públicos na cidade? “, ele questiona.

No entendimento de Dubois, essa onda de privatização não representa progresso, não proporciona nenhuma melhoria de vida para as pessoas, e não adianta privatizar, informatizar e fazer tudo à distância, sem se preocupar com a qualidade do serviço. “A nossa rotina passou a ter muita perda de tempo com telefonemas inúteis. Não faz sentido você ficar aguardando 40 minutos numa linha telefônica para ser atendido”. 

Concluindo suas declarações, Dubois revela que quase tudo está sendo privatizado na França: eletricidade, saúde, gás, abastecimento de água, etc. “Isso encareceu os serviços, e as empresas privadas fazem o que querem, porque para serem rentáveis elas têm que cortar mão de obra. Recentemente na França teve uma explosão num edifício e teve 15 mortos, simplesmente porque a companhia de gás, que é terceirizada, não fazia as devidas manutenções. Deixavam 80% dos vazamentos de gás sem reparação, porque custava caro e não era fundamental. Só se gastava dinheiro na manutenção do serviço apenas quando o caso era crítico”.

Comparando a França com o Brasil, Dubois destaca que na França, apesar de tudo,  ainda existe  eficiência e harmonia entre o serviço público e a sociedade, enquanto o serviço público brasileiro, infelizmente, deixa muito a desejar pela falta de seriedade. “A verdade é que no Brasil o funcionalismo público tem sido muito usado para poder recompensar a fidelidade política, e um bando de incompetentes tem tomado conta de muitos cargos, é isso que eu vejo”, concluiu ele.