Por Mário Augusto Jakobskind* - 05/05/05

Que papelão o da mídia! Bastou a Secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, passar dois dias em Brasília, destilando ódio contra o Presidente constitucional e democrático Hugo Chávez Frias, para que jornais, rádios e tevês seguissem a trilha da infâmia. Até mesmo a "Tribuna da Imprensa" teve uma recaída, que remonta os tempos do lacerdismo pró-Estados Unidos, com a manchete "Chávez provoca Estados Unidos e faz acordo com Fidel". Algo extremamente comprometedor, pois foi copiado do bombardeio informativo produzido pelas agências de notícias.

O jornal da rua do Lavradio adotou a mesma linha da revista "Veja", sabidamente pautada pela CIA e Departamento de Estado. A TV Globo não mudou a rotina dos 40 anos de existência, manipulando informação, mentindo e tentando formar opinião de acordo com os interesses de Washington. A longa tradição golpista da casa repete o que tem feito nos últimos anos em relação à Venezuela, cujo auge aconteceu, em abril de 2002, quando o âncora Renato Machado chegou mesmo a, no Bom Dia Brasil, saudar a queda de Hugo Chávez, mas acabou tendo de se curvar, naturalmente a contragosto, a realidade da volta do presidente venezuelano nos braços do povo.

Assim funciona, vale assinalar, a "fábrica de realidade", para usar uma expressão do todo poderoso sucessor Roberto Irineu Marinho. Esta mesma "fábrica" coloca agora o único panfletário a favor existente no mundo, o senhor Arnaldo Jabor, para desancar, a todo o momento, contra Chávez e, de quebra, contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O brasileiro médio se informando pela TV Globo, lendo semanalmente a "Veja" ou diariamente "O Globo", terá a seu dispor meias verdades, informações mentirosas e deturpadas. Nesse sentido, desta vez o recorde em termos de desinformação fica por conta da senhora Miriam Leitão, com uma coluna diária de economia, que visivelmente defende poderosos interesses econômicos. Sobre a Venezuela, Leitão, demonstrando seguir com unhas e dentes a pauta de dona Condoleezza, mentiu de forma primária, contando com a memória curta dos leitores ou mesmo a desinformação, ao afirmar em uma de suas "análises" que "Chávez dissolveu o Congresso" etc e tal. A partir desta e de outras informações, também mentirosas, a colunista colonizada, "analisou" o governo da Venezuela.

Em outro trecho de suas observações, para enganar os desavisados, Leitão acusa Chávez de usar a técnica das "ditaduras populistas, enfraquecendo partidos e estabelecendo relação direta com as massas". Outras mentiras deslavadas foram assacadas de forma primária e que não resistem a menor análise, como, por exemplo, a de que "Chávez dividiu o seu país de uma forma dramática e talvez irreversível". Leitão não poupou o presidente venezuelano pelo fato de que em "um raro bom momento econômico, (Chávez) distribuiu dinheiro da estatal de petróleo em campanhas populistas e assim venceu o plebiscito".

Para Miriam Leitão e outros colunistas do gênero, distribuir renda significa fazer "campanhas populistas". Revelando profundo desconhecimento da realidade venezuelana, a colunista amestrada de "O Globo", acusa Chávez de ter enfraquecido os partidos de oposição, esquecendo-se, ou, na verdade, omitindo o fato de a Ação Democrática, ou seja, social democrata, e os social-cristãos, agrupados no Copei, terem se esgotado por si só, depois de governarem o país, em sistema de revezamento, por 40 anos. Ambos os partidos foram responsáveis por um sistema corrupto e que manteve o povo alijado de qualquer iniciativa que levasse a combater as desigualdades sociais. Isso, para Miriam Leitão, é o certo, é a democracia.

Miriam Leitão omitiu o fato de que as divisas do petróleo antes de 1998, ou seja, antes da eleição de Chávez, iam para o bolso de poucos privilegiados, que usufruíam os benefícios da grana. Dois dos baluartes do sistema anterior foram os ex-Presidentes Carlos Andrés Pérez e Jaime Lusinchi, social-democratas. Ambos estão foragidos da Justiça venezuelana e se voltarem ao país terão de responder por desvios do erário público. É esta a democracia, na verdade entre aspas, que as senhoras Condoleezza Rice e sua fiel escudeira Miriam Leitão querem para o continente latino-americano. Se, porventura, algum governante não aceitar esses preceitos, será pressionado e desestabilizado, ou mesmo condenado à morte, como aconteceu em alguns casos.

Se a colunista colonizada de "O Globo" não sabe, Chávez nunca dissolveu Congresso nenhum, muito pelo contrário. Uma de suas promessas de campanha, que o elegeu em 1998, foi em favor de uma Assembléia Constituinte. Tudo o que foi feito em matéria de mudanças recebeu o aval do povo, através de referendos. A Venezuela, isto sim, aprofundou o processo de democracia participativa e estabeleceu que o ocupante de qualquer cargo eletivo, inclusive o Presidente da República, ficasse sujeito à perda do mandato, bastando para tanto que um número determinado de eleitores (20% dos votantes) firmasse uma petição nesse sentido. Qual a Constituição no mundo que estabelece essa norma? Será que a senhora Miriam Leitão responde a essa pergunta? É possível que já tenha respondido, pois uma consagrada colunista de economia que se empenhou em ser repórter de rua da TV Globo, sob um sol escaldante, no centro de Caracas, para fazer o jogo dos golpistas que arrancaram Chávez do Poder por 47 horas, já disse claramente a que veio.

Por essas e muitas outras, tanto em matérias nacionais e internacionais, que a opinião pública brasileira está cada vez mais sujeita a "fábricas de realidades" ao estilo Globo, que levam os telespectadores, ouvintes e leitores a serem enganados diariamente com meias verdades ou mentiras deslavadas. Para combater essa desonestidade jornalística a serviço de interesses espúrios, está na hora do movimento social e popular criar um ombusdman (ouvidor) da mídia, que agiria como um fiscal da opinião pública para mostrar como colunistas colonizados e pré-pagos repetem mentiras com o visível intuito de que virem verdades. Se esse mecanismo funcionar de fato, esses escribas talvez pensem duas vezes antes de fazer mau jornalismo, isto é, passar informações erradas para a sociedade.

Ah, sim: Miriam Leitão & Condoleezza Rice e outros colunistas ou chefetes do gênero, não aceitam a adoção na Venezuela, ou onde quer que seja, da Lei de Responsabilidade Social da Mídia aprovada pelo Legislativo. Preferem que a mídia conservadora, que substituiu os partidos políticos ultrapassados pelos acontecimentos, desinforme ou chegue ao ponto de, impunemente, por exemplo, elaborar horóscopos do tipo "hoje é um bom dia para derrubar o presidente Chávez", como acontecia na Venezuela.

* Mário Augusto Jakobskind é jornalista, conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), membro da redação do jornal Brasil de Fato e jornalista do Sisejufe/RJ.

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