Teletrabalho ou confinamento?

Por Denise Carneiro*
 
 
Nessas 3 semanas de ISOLAMENTO SOCIAL e trabalhando em casa, tenho visto colegas dizerem que estão em TELETRABALHO sendo cobrados por metas de produtividade e sujeitos a fiscalização sobre a carga horária e em alguns casos sendo convencidos a ficarem disponíveis em jornada maior do que a cumprida presencialmente.

Sobre metas e controle de carga horária, sabemos que é procedimento aplicado também para  quem opta por trabalhar remotamente, mas vemos relatos de que algumas administrações estão aplicando isso nesse momento como se estivéssemos em situação de normalidade. Esse tipo de atitude revela que algumas administrações não estão sabendo lidar com esse momento, alguns trabalhadores estão absorvendo essa falta de compreensão acerca da realidade vinda das instâncias superiores, e se desgastado, e alguns repassando tensão à equipe. A maioria dos Tribunais parece supor que estamos “descansando” em casa e por isso “não custa nada” mostrar um pouco mais de apoio à sua Unidade...

A divulgação sistemática da produtividade insere uma questão que parece ser a única preocupação dos Tribunais: mostrar que o TELETRABALHO funciona, e a um custo menor, pois arcamos com todos os insumos. Preparem-se para o pior, sim, nesses 5 anos vimos que o que está ruim, ainda pode piorar!
 
Porém, volto ao tema: estamos mesmo em TELETRABALHO? 
 
Estamos em situação de normalidade, trabalhando tranquilamente em casa, com filhos menores na escola, filhos maiores seguindo sua vida em plenitude, pais e mães idosos nas casas deles sem necessitar do nosso auxílio diário, tarefas sendo divididas com os auxiliares, sem aumento das demandas de higiene doméstica e pessoal nossa nem dos filhos, nem dos pets, sem problemas adicionais ligados à vida de cada um de nós, não estamos com medo de sair de casa, e na hora que quisermos podemos reunir amigos e parentes, dar uma esticadinha em um bar, show, pegar uma telinha com pipoca, tomar sol na praia ou piscina, bater um babinha com os amigos antes do churrasco e cerveja, ter um final de semana cheio de lazer para recarregar as baterias que serão utilizadas na semana de trabalho?
 
E sobre a PANDEMIA, nós estamos tranquilos que nós nem nossos familiares, amigos e colegas seremos contaminados? Que se formos, sobreviveremos? Que teremos um serviço de saúde compatível, e se for preciso teremos um respirador disponível? Que nossa vida não será interrompida a qualquer momento por um problema extra e grave com o qual não sabemos lidar? E temos algum suporte psicológico/emocional para facilitar essa jornada? Bem se respondermos SIM a todas essas perguntas, podemos sim, nos sentar à frente de um notebook e nos concentrar totalmente no TELETRABALHO como se fosse uma opção e cumprir as metas.
Contudo, a realidade é bem diferente. É preciso entender que estamos em CONFINAMENTO, e problemas de toda ordem, tensão, medo, cansaço físico e mental por ele acarretados precisam ser considerados na equação. Estamos fazendo o possível para manter o trabalho em dia porque o reconhecemos como importante, precisamos e desejamos seguir trabalhando agora e quando tudo isso passar.

 

Mas para isso precisamos primeiro sair dessa situação de calamidade, ver a nossa rotina se instalar novamente, reconstruir nossas vidas como antes, e voltarmos a ser pessoas inteiras. No momento não somos. Se os Tribunais não entendem isso, as Instâncias inferiores precisam fazê-lo. Se as Instâncias inferiores não fazem, as chefias imediatas precisam fazê-lo.

Se as chefias não fizerem, cabe a aos trabalhadores fazerem, pelas suas vidas e das suas famílias. Precisamos entender, mostrar e exigir a compreensão de que NÃO ESTAMOS em TELETRABALHO: estamos em CONFINAMENTO.
* Denise Carneiro é Servidora da Justiça Federal na Bahia
 

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam necessariamente, as ideias ou opiniões da Fenajufe.

 
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