Breve esboço sobre a pandemia e seu contexto

Por José Roberto Magalhães*

O mundo está envolto em meio a uma nuvem de medo e insegurança. Há meses travamos um combate diário contra o novo coronavírus. Estamos em plena pandemia do COVID-19.

Nessa guerra, onde o inimigo é um vírus oriundo da China, similar ao da gripe, reconhecidas organizações nacionais e internacionais de saúde e especialistas na área de medicina vieram a público indicar os procedimentos necessários à proteção da vida das pessoas, dada a expressiva letalidade da doença.

No mundo, quase oito milhões de pessoas já foram infectadas, das quais pouco menos de quatrocentas e trinta e cinco mil vieram a óbito; por sua vez, no Brasil, os dados mais recentes apontam mais de novecentos mil contaminados, com mais de quarenta e cinco mil mortos.

A estratégia adotada no combate à doença variou de país a país. Enquanto alguns se adiantavam na adoção precoce do isolamento social, como forma universalmente aceita de achatar a curva de crescimento da propagação do vírus, outros recaíam numa atitude complacente, e até negacionista, por parte das autoridades, quanto à gravidade e força de disseminação da doença; no primeiro grupo pode-se citar o exemplo notável da Nova Zelândia, que já ensaia uma volta coordenada à normalidade, ao passo que no segundo aparecem os tristes casos da Bielorrúsia, onde o presidente chega a sugerir o uso de vodca e sauna para evitar o contágio, dos Estados Unidos e seus mais de cem mil cidadãos mortos, e de nosso país, Brasil.

Desde o começo da pandemia, o Brasil tem se mostrado incapaz de dar uma resposta à altura das necessidades do momento, de modo a superar a grave ameaça que paira sobre sua população, e é possível afirmar, sem receio de errar, que a atitude hesitante de seus poderes constituídos para conter o vírus está na raiz do imenso número de vítimas fatais do COVID-19; a incompetência das esferas governamentais no tratamento da doença vem cobrando sua fatura em vidas humanas.

Em razão disso, não há uma perspectiva clara de quando sairemos da situação traumática em que nos encontramos, pois a curva de crescimento da doença não dá sinal de que cairá tão cedo.

Mas, em termos mais explícitos, o que efetivamente contribuiu para que tantos brasileiros perdessem a vida em tão pouco tempo?

Jamais houve uma ação coordenada entre União, Estados e Municípios, não se falou a mesma língua em momento algum para encontrar um caminho consensual no combate ao vírus, mas um discurso contraditório proferido pelas autoridades respectivas, com o agravo de que o ente federal, na figura de seu presidente, seguindo na contramão das recomendações abalizadas dos mais eminentes especialistas em infectologia, passou a solapar as tímidas medidas definidas por governadores e prefeitos para frear o avanço da doença.

Com efeito, se não bastasse o problema crônico e histórico da saúde pública deste país, com número insuficiente de hospitais, leitos, UTIs e profissionais especializados para atender os doentes, desde o início da pandemia, as recomendadas medidas sanitárias de isolamento social, uso de máscara, de observância da distância mínima entre as pessoas no espaço público, dentre outras prevenções, não foram cumpridas de forma generalizada e rigorosa pelos agentes públicos e privados, o que resultou no colapso de nossos hospitais, em razão do número crescente de contaminados que lhes são encaminhados, fato que vem se agravando. E, nessa crise sanitária e política, o senhor presidente da República, com a força do exemplo emanado da mais alta autoridade pública da nação, sai às ruas sem proteção facial, promovendo aglomerações, cumprimentando efusivamente seus apoiadores e levando muitos a acreditarem que o vírus não é tão perigoso como dizem; é coisa da mídia, pensam, e passam a replicar em seu dia a dia tal comportamento reprovável.

Desse modo, medidas sanitárias determinadas por Estados e Municípios, já tardias em sua adoção e de aplicação pouco rigorosa, são executadas de forma insatisfatória nas mais diversas regiões do país, o que retarda a queda da taxa geral de contaminação pelo vírus, no curso da maré de confusão instalada pela briga entre os entes federados. Recursos públicos são parcamente reservados ao setor público de saúde para o combate à doença, quando não desviados, segundo as últimas notícias veiculadas pela imprensa, e a promessa da entrega de novos hospitais vai pelo ralo do esquecimento.

A crise é agravada quando o presidente demite dois ministros da saúde, graduados em Medicina, num curtíssimo espaço de tempo, e alça ao posto de maior dirigente da instituição um general do Exército, sem qualquer formação médica; a balbúrdia se aprofunda, mais doentes e mortos é o resultado previsível. E o presidente prossegue em seu plano de sabotar a estratégia anti-COVID-19 quando se dirige ao público para dizer que a doença não é grave, as estatísticas são forjadas, a cura está no uso da cloroquina, sem fundamento científico, trata-se de um complô da Globo em conluio com governadores e prefeitos para espalhar o terror e comprometer seu governo e que não há razão para prosseguir com o isolamento social. Esse entrechoque de posições frente ao novo coronavírus conduz a um relaxamento na prevenção da doença, especialmente de parte daqueles que comungam das opiniões de Jair Bolsonaro, e, assim, se tornam potenciais transmissores do vírus.

Ademais, fatos recentes informam que o Ministério da Saúde, que deveria ser o principal órgão coordenador da estratégia nacional anti-COVID-19, deturpou, escondeu, os reais dados relativos ao número de contaminados e mortos pelo vírus, atitude criminosa que dificulta a implantação de planos de ação para vencer a pandemia, conforme a dinâmica diária de propagação da doença.

Veja-se, ainda, que fatores de ordem psicológica também podem contribuir para o crescimento dos casos de COVID-19, na medida em que o instinto social de estar junto a outrem entra em conflito com o, igualmente, importante instinto de preservação da vida, produzindo a angústia característica da permanência em quarentena por um longo período de tempo e distante de quem mais amamos, o que pode comprometer o isolamento social pela tentação em abandoná-lo prematuramente (algo que, infelizmente, vem ocorrendo).

Além disso, não podemos nos esquecer de outros fatores sociais, políticos, culturais e econômicos que ajudam a fazer desta a maior tragédia do século, cabendo aqui, portanto, a seguinte digressão: a ascensão de Bolsonaro à presidência corresponde à da chamada fração capitalista de extrema-direita, radical em suas posições conservadoras, que ele representa. A grosso modo, do ponto de vista conceitual, isso significa a radicalização pelo grande capital que, em certa época da história, passa a utilizar o aparato político, judicial, legislativo, policial e econômico de sua longa manus, o Estado, para colocar em novos e mais duros patamares os níveis de exploração da força de trabalho e de submissão da classe trabalhadora.

Apressada a derrocada do PT com o impeachment de Dilma, soou o alarme para o grande capital – o real detentor do poder na sociedade – de que havia chegado a hora de fazer terra arrasada das ilusórias conquistas sociais dos trabalhadores, reduzir, e mesmo eliminar, direitos historicamente conquistados à força pelo movimento organizado dos trabalhadores, rebaixar a massa salarial no país, e seus componentes derivados (reformas trabalhista e previdenciária), atacar os sindicatos, por meio dos quais se organiza a luta por condições melhores de labor e salários, enfim, chegara a ocasião de a mais recente crise do capital ser dissolvida pela colocação da taxa de lucro em níveis maiores que o do período histórico pregresso, ao preço da supressão de vantagens sociais dos trabalhadores; o enriquecimento do capitalista pressupõe o empobrecimento do trabalhador.

E para cumprir a tarefa que historicamente assumiu, e a caracteriza como classe capitalista, de rebaixar o custo do trabalho, e seus derivados, recrudescendo a subjugação de sua antagonista nessa relação social, a classe trabalhadora, para que, ao final, os lucros sejam sempre crescentes, a grande burguesia se vale de todo expediente ao seu alcance através dos instrumentos do Estado, seu “cão de guarda”. Assim é que salários são corroídos, a legislação trabalhista outrora protetora é desmantelada, a cobertura previdenciária implodida, programas sociais esvaziados, a jurisprudência dos Tribunais se volta contra os interesses dos trabalhadores, a implementação de um “Estado mínimo” cada vez mais se aproxima da realidade, potencializada pelo poder de persuasão e convencimento social da grande mídia, aumenta a já maior participação da expressão dominante do capital no produto da riqueza produzida no país pelos trabalhadores (em nosso caso, o capital financeiro), impeachments são forjados e personalidades caricatas de extrema-direita, como o atual presidente, são alçadas ao poder.

É nesse cenário de destruição de políticas públicas que advém a pandemia do novo coronavírus. O vírus se alastra pelo país numa fase de sua história em que é aviltada a já sofrida condição de vida e saúde de seu povo pobre e trabalhador, atacando os mais vulneráveis e destituídos da proteção do Estado, como negros, índios e outras minorias. É nesse difícil instante de nossas vidas que se revela a face mais dura do capital, na forma de seu ódio intrínseco ao trabalho e ao trabalhador (podemos incluir o servidor público, pois vem uma reforma administrativa por aí), cuja atual personificação política é o presidente Bolsonaro. Não poderia dar mais errado.

Por conseguinte, quando ele diz “Acabemos com o isolamento social. Retornemos ao trabalho para não prejudicar a economia”, não é, nada mais, nada menos, que reverberar a ideologia capitalista, por excelência, segundo a qual: O que cabe ao trabalhador não é estar em casa se protegendo contra a doença, mas colocar sua força de trabalho sob a direção do capitalista, de forma submissa, pelo maior período de tempo possível, na produção da riqueza de que ele (capitalista) se apropriará em sua maior porção. “A roda da fortuna não pode parar”. Daí, para muitos é inaceitável ver o conjunto da classe trabalhadora em quarentena, sem estar produzindo a riqueza para alguém por meio da oferta de sua força de trabalho, um sentimento que impregna, profundamente, nossa cultura e o modo de pensar da sociedade, nas mais diversas áreas, e é defendido até por integrantes das classes mais desfavorecidas.

“Que se danem, portanto, os ônibus, trens, metrôs lotados de trabalhadores pelo Brasil a fora, em plena pandemia, contanto que eu acresça minha taxa de lucro”, eis o lema do capitalista, que Bolsonaro, em sua loucura metodicamente empregada, propaga aos quatro ventos.

É bom notar que, mesmo governadores e prefeitos que há pouco adotaram ações mais duras contra o novo coronavírus, opondo-se à inércia da União nessa questão, vêm relaxando o isolamento social em período de alta na propagação da doença, estando seduzidos pela visão de mundo capitalista, com a pressão adicional de parte do empresariado.

E, na onda do relaxamento das medidas anti-COVID-19, as pessoas voltam aos poucos a aglomerar-se em shoppings e lojas, quando sequer atingimos o pico de contágio pelo vírus, o que, conforme opinião de especialistas em saúde, pode ser “um tiro no pé”.

Como bem diz o cientista político Jessé Souza, a elite brasileira é a “elite do atraso”, e Bolsonaro é a voz política dessa minoria que deprecia a vida do negro, pobre e trabalhador, e se preocupa apenas com os valores vultosos de sua conta bancária.

A nós, como integrantes da classe trabalhadora, compete perder todas as ilusões com esse modelo socioeconômico iníquo por natureza, aceitar a posição que nos toca nessa sociedade, assumir a correta visão ideológica que corresponde ao nosso modo de vida e fazer prevalecer nossos reais interesses, transformando nossos anseios em luta pela melhoria das condições sociais.

*José Roberto Magalhães Campos é Diretor do Sindijufe-MT

 

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, as ideias ou opiniões da Fenajufe.

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