“Vocês não vão reagir não”?

Por Denise Carneiro*

A frase entre aspas foi dita por um garçom asiático em um café durante uma atividade na ONU ocorrida em março desse ano em Genebra. Foi dirigida ao jornalista brasileiro Jamil Chade que cobria esse evento e foi a frase mais marcante entre as que os brasileiros têm escutado quando conversam com estrangeiros. A nossa resposta é: “vamos reagir, sim! E nas ruas em um processo que já se iniciou e no dia 1º de maio daremos mais um importante passo nesse sentido, em defesa da vida!”. Ouvimos ainda outras perguntas como: “Por que vocês votaram nesse Presidente?”, ou “Quando é a próxima eleição?”, ou outras mais veementes de estupefação e cobranças, afinal o Brasil tem, com razão, assustado o mundo. Também na Cúpula do Clima, realizada nos EUA nesse final de semana fomos citados como o “Pais que encolheu” em um documento que diz: "Não foi apenas a floresta que diminuiu. A sociedade encolheu, a expectativa de vida caiu, a economia contraiu, a comida no prato foi reduzida e as possibilidades de cruzar as fronteiras foram limitadas”.

Não vou aqui repetir o óbvio ululante, embora os dedos insistam em registrar aqui um veemente repúdio aos últimos gestos do inquilino da casa de vidro, que se supera a cada dia em maldades e ironias macabras nos fazendo vivenciar um inenarrável pesadelo: Nessa semana ele pousou para uma foto sorrindo com uma placa onde estava escrito “CPF CANCELADO”. Para quem não sabe o cancelamento de CPF, salvo raras exceções, se dá por MORTE do portador. Também se fala sobre esses termos serem objeto de piadas mórbidas nos ambientes milicianos. O que denota o gesto de um Presidente da República tirar uma foto dessa? O que dizer sobre isso? Nem ele teve como justificar, pois no dia seguinte chamou uma repórter de “idiota” ao ser perguntado qual o motivo da foto. Como se não bastasse, o Presidente tenta impedir políticas de proteção à saúde pública e a cada dia nos ameaça de autogolpe. Parando por aqui o relato da morbidez autoritária.

E o que esperamos para reagir? A resposta pode ser “a responsabilidade com a nossa saúde e com a dos outros”. Esperamos ansiosamente durante todo o ano de 2020 que houvesse um decréscimo da curva de contágio, mas janeiro e fevereiro nos decepcionaram levando milhares de conterrâneos às covas em cenas dantescas que, mais uma vez, - e é impossível não falar – poderiam e deveriam ter sido evitadas. Em março e abril a chacina eugênica continuou no País e não dá sinal de ser interrompida, com análises técnicas idôneas apontando a política do governo federal como negligente, para dizer o mínimo, em relação à saúde dos brasileiros, inclusive a OAB representou junto à PGR denúncia de Bolsonaro no STF por crimes de negligência e prevaricação no combate à pandemia. A CPI da COVID, instalada ao arrepio da casa de vidro, deve jogar luz nessa carnificina.

Pois, foi essa responsabilidade individual que manteve em casa os que puderam lá ficar, e levou à cova lotes e lotes de brasileiros que não puderam. Mas nem mesmo ficar em casa nos mantêm a salvos dessa doença, tampouco a distância econômica e social deve impedir o sentimento de solidariedade humana pelos que perecem a cada hora de norte a sul desse País. Famílias inteiras foram destroçadas de forma irrecuperável, seja pela covid, pela fome, miséria pela violência urbana que já dá sinais de explosão. Antes de 2022 essa calamidade pode alcançar o ponto de não retorno. Por isso vejo ter chegado a hora de sair da inércia responsável e, de certo modo, cômoda. Responsável porque estamos diante de uma doença grave e letal. Cômoda porque ficarmos sentados é mais fácil do que levantar, e ainda nos ajuda a justificar a permanência - dos que podem - no trabalho remoto como se fosse possível comparar as duas situações: o de participar de uma atividade de rua em local arejado por 1 ou 1,5h e a de estarmos em ambiente coletivo por 7, 8, 9 horas. Essas duas situações são diametralmente diferentes.

Além disso, nossa responsabilidade para com a nossa vida e a dos nossos é desafiada pela certeza de que não estamos totalmente seguros nas nossas casas, com esse vírus e suas cepas tentando arrombar nossa porta alimentados por quem deveria estar na liderança do combate a ele. É justamente a responsabilidade então, que me faz optar por sair às e lutar pela vida, já que a batalha em virtual está sendo perdida irremediavelmente pela nossa classe.

Por isso, nesse dia emblemático que é o Dia do Trabalhador, seguiremos ensaiando o retorno às ruas. E o faremos pela vida, por vacinação para todos, por um auxílio emergencial digno aos mais vulneráveis, por apoio aos MEIs e aos micro e pequenos empresários, e pela manutenção e fortalecimento do serviço público em todo o território nacional.

É preciso defender, além de nós mesmos e da D. Maria do acarajé, de Seu Pedro da feira, de Seu José do mercadinho, do profissional liberal do Uber, precisamos defender também a nossa jovem Democracia.

*Denise Carneiro é Trabalhadora da Justiça Federal da Bahia, membra do Coletivo Resistência e Luta no Judiciário e da CSP-Conlutas/BA.

 

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