Pedro Aparecido sobrevive à Covid-19

O ex-Presidente do SINDIJUFE-MT e também ex-Coordenador da Fenajufe, Pedro Aparecido de Souza, chocou os amigos ao revelar que também foi infectado pelo coronavírus. Justamente ele que sempre tomou todas as precauções possíveis contra a Covid-19, andando sempre de máscara e viseira e mantendo rigorosamente o distanciamento mínimo recomendado pelas autoridades de saúde para evitar o contágio. "Ter covid é estar pertinho da morte", alertou ele, destacando, entretanto, que, nesta terça-feira (03/11), finalmente pôde voltar a rever os filhos sem nenhum risco, após duas semanas de quarentena. 

Mesmo afastado da militância sindical, ele continua na ativa no TRT23, na função de Oficial de Justiça Avaliado Federal. Já poderia estar aposentado mas preferiu adiar este momento, e é bem possível que tenha contraído a Covid-19 por ter recusado o trabalho remoto e permanecer na modalidade presencial.

Para quem deseja vê-lo de volta à vida sindical, Pedro Aparecido afastou, definitivamente, esta hipótese. A militância, segundo ele, vai continuar, mas não mais à frente de nenhuma entidade. Nas redes sociais, entretanto, ele permanece muito ativo e tem uma legião de seguidores.
Nesta entrevista ao SINDIJUFE-MT, Pedro Aparecido fala do presente, passado e futuro da vida dele.

Então verdade que você pegou Covid? Como foi que isso aconteceu?

Sim. Eu peguei covid. Depois de 8 meses de pandemia de covid-19, com mais de 160.000 mortes no Brasil e mais de 1.000.000 no planeta, eu também fui contaminado.Consegui escapar por 8 meses e consegui evitar que meus filhos menores fossem contaminados. Sempre usei máscaras, viseira, álcool gel no bolso, não coloco a mão em nenhum local pois sempre uso guardanapos de papel e mantenho 5 metros de distância de pessoas. Mas, saindo do Teletrabalho e entrando no Trabalho Presencial na Justiça do Trabalho, não tive como evitar contatos próximos das pessoas nas diligências. Foram diligências em hospitais, empresas com aglomeração, elevadores em prédios comerciais. E fui contaminado. Ainda estou com 20% do pulmão comprometido, risco de trombose nas pernas e risco de embolia pulmonar. Minha filha mais velha pegou covid. Já sarou e está Trabalhando. O pai da minha namorada pegou e, infelizmente, faleceu. Minha namorada pegou. Meus filhos menores, Morgana e André, que é autista, não pegaram. O André, meu filho, ficou isolado nestes 8 meses. Mas não tinha como evitar o contato com ele. Eu vejo ele todos os dias e ele fica na minha casa na quarta à noite, quinta de manhã, sexta à noite e durante o sábado. Eu vou ao mercado, vou à farmácia, mesmo durante o Teletrabalho. Mas o risco do Presencial é muito mais arriscado.

Em decorrência da pandemia, que análise você faz da atenção que as pessoas estão dando às precauções contra a covid-19 e também quanto às outras doenças? Será que não existe o perigo da população estar "baixando a guarda" para outra doenças mortais como o câncer e a dengue?

A análise que eu faço é que a segunda onda da pandemia vai vir, como na Europa, porque a população, quando você tem um presidente que pede pra não usar máscara assim como o Trump nos Estados Unidos, quando você tem um presidente que zomba da doença, um presidente irresponsável como nos Estados Unidos. Então a tendência da população é seguir o líder, seguir o presidente. Então, acha que não tem mais perigo, começa a baixar a guarda e a tendência é de que venha uma nova onda da doença.

Quantos anos você tem de vida pública (no TRT e no Sindicato/Fenajufe)?

Na vida pública eu tenho 25 anos de TRT como Oficial de Justiça Federal, eu tenho 36 anos como servidor público, tenho 40 anos de contribuição para a Previdência e trabalho desde os cinco anos de idade. Então eu tenho 50 anos de trabalho, pois naquela época existia trabalho infantil, a gente trabalhava desde cedo. No Sindicato foram nove anos como presidente e mais alguns anos como diretor, entre 2003 e 2017, totalizando aí 14 anos no Sindicato. E onze anos como coordenador da Fenajufe.

Já poderia estar aposentado, se quisesse. Mas preferiu continuar trabalhando. Por quê?

Já posso aposentar, mas vou ficar mais um ou dois anos. Escapei da Contrarreforma Previdenciária. Utilizei meu tempo de lavrador.

Por qual motivo você adiou a sua aposentadoria?

Preferi fazer uma adequação pra minha aposentadoria. Preferi fazer uma ponte de um ou dois anos, pra me acostumar com a vida de aposentado e fazer essa ponte sem traumas, bem devagarinho, para que quando eu me aposentar eu esteja bem tranquilo e acostumado com a vida de aposentado. Portanto, foi por isso que preferi ficar mais dois anos na ativa.

Não foi arriscado demais pra você, permanecer no trabalho presencial? Por que não quis o teletrabalho?

Eu preferi o Trabalho Presencial ao Teletrabalho.Não gosto de Teletrabalho.Acho o Teletrabalho isolador, elimina o contato com os outros companheiros de Trabalho, e impede a agregação coletiva das nossas lutas. E aumenta a alienação sobre a Força de Trabalho e os Meios de Produção.

Você não acha que os servidores que permaneceram no presencial durante toda a pandemia mereciam um adicional de insalubridade? Seria uma ideia para o jurídico dos sindicatos?

Quem está no presencial deve ganhar o normal. No Teletrabalho é que deveria ter uma ajuda de custo, como os bancários conseguiram. Num valor maior, lógico, do que eles conquistaram. Mereciam uma ajuda de custo por custear todo o Trabalho em casa, pois o patrão está lucrando à custa do Teletrabalho: energia, água, papel, tinta, internet, condicionador de ar, papel higiênico, sabão, móveis...

Mas ainda acho que o judiciário deveria ficar só com plantões emergenciais. O correto seria o judiciário Trabalhar só com plantões emergenciais até a pandemia diminuir.

Como descobriu que estava com Covid?

Não tive nenhum sintoma externo. Nem falta de ar. Absolutamente nada. Se minha namorada não tivesse os sintomas, possivelmente meu pulmão iria para 60% de comprometimento, pois não saberia que a doença estava destruindo meu pulmão. Só descobri que estava com 20% do pulmão comprometido porque fui acompanhá-la ao hospital e também fiz os exames. Ou poderia ter uma trombose ou embolia pulmonar. Consultei 5 médicos. Fiz uma centena de exames para ver como estava o ataque do covid. No 1° dia, minha namorada teve vários sintomas do covid-19. E aí fomos ao hospital. E no 2° fizemos o exame de covid-19. Aquele do cotonete no nariz e confirmou a contaminação.

Como foi o seu tratamento?

Precisamos fazer o exame de covid num laboratório particular. Minha namorada tomou remédios para os sintomas: dores nas costas, febre, fraqueza, tosse. Eu, de imediato, tomei antibiótico para o pulmão e corticóide. Depois minha namorada teve 15% do pulmão comprometido. E também tomou antibióticos e corticóides. Tudo receitado por médicos.Depois o covid atacou minha circulação sanguínea e me colocou em risco de trombose e embolia pulmonar. Minha namorada também. E o vírus a atacou: rins, fígado, bílis e pâncreas. Fizemos 4 tomografias computadorizadas do tórax. Eu ainda estou tomando anticoagulante até dia 08 de novembro. Foram 14 dias sem tomar sol. Presos em casa, só indo ao hospital, tomando todo cuidado para não contaminar ninguém. Há muitos anos tomo vitaminas. Caminho sempre. Nos últimos anos cheguei a 101 quilos e fui emagrecendo até chegar em 75 quilos hoje. Isto ajudou muito na luta contra o covid.
Estou tomando mel, própolis, extrato de alho, multivitaminas desde março de 2020. E vitamina C e D3. Isto ajudou muito na luta contra o vírus. Minha namorada fez academia durante anos e isto a ajudou no combate ao vírus.Fomos ao hospital a cada 3 dias, em média, e com aparelhos de medição em casa, a cada 3 horas fizemos medição de temperatura, pulsação por minuto, pressão, oxigenação do sangue e PI (índice de perfusão). Deixei claro que no caso de internação teria que ser em hospital público, que é referência de covid em Cuiabá (Hospital Estadual Santa Casa). E que, em nenhuma hipótese, aceitaria ser medicado com cloroquina.

Que conselhos você daria às pessoas em relação à Covid-19?

Não se automediquem nem se limitem ao que dizem tias e tios, não embarquem em mentiras criminosas de whatsapp e não deem voz para ignorantes.Ouçam a ciência. Sempre ela. Não tomei cloroquina. Uma vizinha atleta de quarenta e poucos anos teve covid, tomou cloroquina e dentro de 30 dias estava morta com ataque cardíaco. Acreditem na ciência; acreditem nos médicos; tomem vitaminas para melhorar a imunidade (mas com cuidado); se sentirem sintomas de covid, corram ao médico. Covid tem sequelas. Quando terminar a quarentena volte ao médico e refaça todos os exames.Se cuidem e cuidem das outras pessoas, usando máscaras, viseiras (eu e todos os meus filhos usamos desde março), álcool em gel e guardanapos de papel. Evitem aglomeração (se for possível).Ter covid é estar pertinho da morte. É grave. Mata.

Do que você mais tem saudade dos seus tempos de dirigente sindical? Existe alguma possibilidade de um seu retorno à ativa mesmo após a sua aposentadoria?


Tenho saudade dos tempos de vivência sindical. Ainda continuo militando, de vez em quando vou pra rua, sou um militante também nas redes sociais. Mas tenho saudade sim, de estar na vanguarda, de estar à frente. Contudo, hoje eu não vejo possibilidade de voltar à frente de algum sindicato, de alguma Federação. Pretendo contInuar, mas na retaguarda, ajudando no que for possível, porém sem estar à frente de nada. Assim que estiver aposentado vou querer estudar e viver a minha vida sem estar à frente das lutas sindicais, prefiro deixar para as pessoas mais novas, que têm mais energia que a gente.

Pedro, após a reforma da Previdência, e com a reforma administrativa no retrovisor, ainda vale a pena ser servidor público ou é melhor tomar distância? Que futuro você vê para quem está ingressando daqui pra frente?

Sempre valerá a pena ser Servidor Público.

 

Luiz Perlato/SINDIJUFE-MT

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