750 mil: é o número de vidas perdidas para que se alcance a imunidade de rebanho, se for mantida a política atual em relação à Covid-19

Na quinta-feira, 25, o Sintrajufe/RS promoveu uma live com o título “Minha vacina chega quando?”. E esse foi o tema da live realizada no final da tarde dessa quinta-feira, 25, pelo Sintrajufe/RS. A live contou com a participação do médico e professor da USP Gonzalo Vecina Netofundador e ex-presidente da Anvisa, um dos idealizadores do SUS e também exerceu os cargos de secretário municipal da Saúde de São Paulo e secretário nacional da Vigilância Sanitária.

Ele alertou que, se não houver mudanças na forma de combate à pandemia, para o Brasil chegar à chamada “imunidade de rebanho”, morrerão 750 mil pessoas por Covid-19 no país.

Gonzalo Vecina explicou que há duas formas de uma pandemia acabar. Uma é acabando com as pessoas “suscetíveis”, aquelas que podem ter a doença. Para se chegar à chamada imunidade de rebanho, quando o vírus para de circular, é preciso de que 70% da população tenha tido a doença. No Brasil, cerca de 20% de pessoas tiveram contato com a doença; para isso, morreram 250 mil brasileiros; para se chegar aos 70%, teriam que morrer 750 mil pessoas. “É isso que o nosso presidente quer”, afirmou.

O médico afirmou que “essas pessoas [750 mil] não precisam morrer, assim como não precisariam ter morrido 250 mil”. Outros países conseguiram atravessar essa situação com menos mortes, aplicando medidas de prevenção e auxílio financeiro a pessoas mais vulneráveis e pequenas e médias empresas.

O segundo modo de acabar com uma pandemia, disse Vecina, é a vacinação. Esta, no entanto, não é um ato individual, mas coletivo, pois todos têm que se proteger para evitar a circulação do vírus. Quem tem que tomar vacina? De acordo com o médico, todos acima de 18 anos, cerca de 160 milhões de pessoas. Como são duas aplicações, o Brasil precisa de 320 milhões de doses. No entanto, “para ter vacina, tem que comprar”, enfatizou Vecina, explicando que os países que estão agora vacinando começaram a comprar no ano passado as então promessas de vacina. E o governo brasileiro não fez isso: “o Brasil não jogou o jogo”.

  Por falta de investimento, Brasil parou de produzir vacinas

O Brasil poderia ter produzido a vacina, no entanto, “faz uns 20 anos que não estamos pondo dinheiro na Fiocruz e no Instituto Butantan”, afirmou o ex-presidente da Anvisa. Além disso, outras quatro instituições também pararam de produzir vacinas no país, tudo isso por falta de investimento.

O médico informou que o Brasil parou de produzir vacinas como BCG (tuberculose) e contra difteria por falta de dinheiro para atualizar as fábricas. O país mudou de produtor para importador. Segundo o Gonzalo Vecina, as brigas do ministro das Relações Exteriores e ofensas públicas à China atrasaram em um mês a importação de insumos e, por conseguinte, a produção de vacinas no Brasil. Vecina acredita que, a partir de março, “se não acontecer nenhuma desgraça”, teremos a produção de cerca de 30 milhões de doses por mês. Seguindo esse ritmo, a vacinação estaria finalizada em dezembro ou janeiro de 2022.

Novas cepas do coronavírus

Gonzalo Vecina também falou sobre as novas cepas do coronavírus que estão surgindo em vários países e já circulam no Brasil. Ele explicou que os novos vírus são resultado de estamos permitindo que o coronavírus circule “violentamente” entre nós, sem o mínimo de isolamento social.

“Enquanto o vírus circular, vai fazer mutações.” O médico disse que as cepas que apareceram até agora são mais “brabas”, mas não são mais resistentes. No entanto, as resistentes podem aparecer. E mudar uma das vacinas já existentes para que possa responder a uma mutação não é algo rápido. Por isso, reforçou: o uso de máscara é fundamental, de três camadas de tecido; se for o caso, que se usem duas máscaras. Importante não ficar em lugar fechado sem arejamento.

O médico ressaltou que é muito difícil fazer isolamento em uma sociedade tão desigual. “Não é dá para fazer lockdown com gente passando fome”, afirmou. Mas quem pode ficar em casa deve fazê-lo.

A live teve como mediador o médico especialista em saúde pública e integrante da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, Geraldo de Azevedo e Souza Filho. Confira, nesta terça-feira, 2, matéria destacando a fala da outra debatedora, a médica infectologista, diretora do Sindicato dos Médicos de SP e da CUT/SP, Juliana Salles, que afirmou que o caos na saúde pública é resultado da falta de investimento.

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