Especialistas avaliam trabalho remoto, assédio moral e organizacional, gestão do tempo e o futuro da carreira

Temas foram debatidos no encontro estadual da JT com o psicanalista Bruno Farah e a secretária de Gestão de pessoas do TSE, Ana Claudia Mendonça

O II Encontro Estadual dos Servidores e Servidoras da Justiça do Trabalho, realizado pelo Sisejufe nos dias 27 e 28 de maio, trouxe à tona a reflexão sobre questões novas surgidas com o trabalho remoto na pandemia, que passaram a preocupar a categoria e os gestores.

O psicanalista Bruno Farah conduziu o painel “Assédio Organizacional e Assédio Moral no Trabalho Remoto”, no dia 27 de maio. Bruno, que é psicanalista e psicólogo do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2), explicou que o mundo do trabalho está diante de um fenômeno novo.

Bruno começou a conversa com uma pergunta: O que o teleassédio moral organizacional nos ensina e nos exige sobre como saber teletrabalhar? “Estamos diante da versão do assédio moral feita no teletrabalho ou trabalho remoto. Como fenômeno novo, uma das formas desse teleassédio é o sintoma que nos comunica algo que precisamos aprender. São as tais mensagens fora da hora do trabalho. Trabalho fora da hora do trabalho. Isso nos coloca num paradoxo que nos deixa tão desnorteados, que faz parte de todo mecanismo de depressão que vem com esse tipo de assédio”, apontou o especialista, acrescentando que o fenômeno acontece no mundo inteiro.

Segundo o psicanalista, algumas pessoas relatam que não vivenciavam esse problema presencialmente, não acontecia no gabinete, mas acontece agora no remoto. “As instituições não estão acostumadas a trabalhar desta forma”, completou.

As mensagens fora de hora nascem no teletrabalho ou trabalho remoto são fenômenos que passaram a acontecer com a pandemia, o novo normal.

Bruno explicou que o assédio clássico segue um tripé: uma vertente é o método de avaliação de desempenho/ motivação; o outro é o valor moral e a terceira vertente são as nossas ficções, como a gente colabora com isso (histórias que a gente conta, frases que ficam).

Ele diz que dois valores morais são incorporados pelas organizações de trabalho: orientação para resultados (a gente quer dar o melhor de si) e a cooperação (trabalho em equipe e humanização). A humanização, segundo o convidado, está no cerne da Resolução do CNJ sobre assédio moral.

Bruno alertou que, para cumprir as metas impostas, as pessoas muitas vezes trabalham por conta própria. Outra situação preocupante é que as pessoas estão tomando ansiolíticos para aguentar a pressão do trabalho.

Quem falha e não consegue cumprir metas, tem os efeitos da falha no tripé apontados para si. E, como conseqüência, vem a depressão. Essa é a base do paradoxo do assédio organizacional.

Sobre as mensagens fora de hora, o psicanalista deu detalhes de uma pesquisa que está sendo feita no TRF2, e que será replicada por outros tribunais. Oitenta por cento das pessoas que responderam o questionário disseram que recebem mensagem fora do horário.

Bruno diz que uma situação muito comum é o servidor receber uma mensagem fora de hora, num domingo, por exemplo, com ressalva para responder na segunda. O subordinado acaba fazendo na própria noite domingo. “Eu escolho fazer de noite, fora da norma. O que seria uma demanda de equipe passa a ser uma responsabilidade individual. Tem uma subserviência embutida. A gente participa disso quando se permite ao abuso”, disse.

O convidado alertou que momentos de exceção na pandemia tendem a naturalizar. “E as mulheres estão mais cansadas”, avaliou.

O painelista opinou que é preciso conversar sobre esses fenômenos e não somente mandar relatos para os comitês de saúde.

Lançando a pergunta: “a gente trabalha em casa ou mora no trabalho”, Bruno defende o direito ao desligamento.

“É possível criar uma etiqueta de como agir? Para se proteger? Como agir com essas novas ferramentas? É um sintoma novo e mundial. Tem que ser muito discutido entre nós”, disse aos presentes.

Novas ferramentas tecnológicas e o futuro da carreira

A secretária de Gestão de Pessoas do TSE, Ana Claudia Mendonça, propôs trazer o olhar para as carreiras dos atuais servidores e para quem vem. “É jogo de bastão. Temos que deixar terreno. Preparar para quem vem depois. O Fórum de Carreira que está sendo instalado traz muita riqueza para o debate. Hoje aqui eu trago inquietações, algumas reflexões para que a gente possa junto fomentar esse fórum de carreira, para que a gente possa pensar junto”, disse.

Ana disse que, para falar do futuro do trabalho, é preciso romper alguns paradigmas, busca de um novo pensar. “Esse momento traz o rompimento de paradigmas – o que estamos vivendo nesses dois anos nos traz para a reflexão”, avaliou.

Uma pauta já atrasada, segundo Ana, mas que está entrando em debate é a questão da diversidade, equidade e inclusão. “Todas essas coisas têm impacto na carreira. Tem coisas que você não precisa mais ter. Estamos começando a mudar forma como consumimos e como isso interfere na nossa carreira. Com as lives, viramos influenciadores digitais. Todos temos voz, somos protagonistas e somos influenciadores . Quem são essas pessoas, quem nos interessa trazer para nosso lado e como trazê-las? Todos estarão hoje no mundo digital. Temos que dar voz a essas pessoas porque todas são capazes de influenciar . Todos tem força na sua potência”, garante a gestora.

Ana disse que o momento também exige dos profissionais ter mais capacidade de resolução de problemas e poder de resiliência, além de domínio da tecnologia. “São habilidades que vamos ter que lidar e desenvolver até 2025”, opina.

A convidada disse que é importante também buscar o prazer de viver. “Está difícil conciliar trabalho com casa. O tempo ficou líquido. É preciso agora é olhar esse tempo líquido e ver onde eu vou poder dizer não. Que momentos eu vou querer pra mim? E como vou aproveitar meu próprio tempo? Vamos ter que olhar para isso com muita seriedade. A carreira é sua e esse não-limite é prejudicial. O controle tem que estar dentro de você, e como você vai se posicionar. Por isso é tão difícil. Antes era seu período de trabalho que dizia sem tempo de trabalho. Agora você tem que gerenciar. Tem que ter um novo pensar para ver como lidar daqui pra frente. A gente ainda não conseguiu fazer essa autogestão”, refletiu a especialista.

A gestora disse que outra situação nova é que, depois de terem experimentado o remoto, as pessoas passaram a buscar flexibilidade. “Isso tem a ver com personalização. Alguns querem presencial, outros remoto e outros, híbrido. Tem gente que precisa estar no presencial . Alguns que foram pro remoto não querem mais voltar. Aumentaram os pedidos de teletrabalho do TSE . Mesmo estando no trabalho remoto, já querem garantir”, acrescentando que acha o fenômeno positivo uma vez que amplia o leque para as pessoas poderem escolher onde viver melhor.

“Tenho uma funcionária do TSE que mora em NY. O desafio é como lidar com isso e fazer com que as pessoas espalhadas pelo mundo não percam a conexão com seu Tribunal. Temos que pensar nisso agora e não deixar pra depois ”, ressaltou.

Ana afirmou que as pessoas precisam buscar propósitos para trabalhar. “O que significa você acordar todo dia para seu trabalho? Significado e propósito são coisas que te fazem acordar todos os dias”, revelou.

O que faremos diante dessa nova realidade? O que fazer daqui pra frente? Deixo essas reflexões. Precisamos pensar sobre isso”, propôs a palestrante aos servidores que participaram do encontro estadual do TRT.

Os painéis estão disponíveis em nosso canal no Youtube:

Dia 27, neste link. Dia 28, neste link.

A última reportagem sobre o Encontro Estadual da JT será publicada neste sábado (5/6). Leia a primeira matéria neste link. A segunda está disponível aqui.

 

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