Desfiliar-se da Fenajufe: uma reação compreensível, mas um erro estratégico

Por Cláudio Castro de Oliveira

A insatisfação de parcela significativa dos técnicos judiciários é legítima. Poucos temas mobilizam tanto os servidores do Poder Judiciário da União quanto a discussão sobre a reestruturação da carreira. A exigência de nível superior para ingresso no cargo de técnico, aliada à percepção de que muitos desempenham atribuições de elevada complexidade, alimentou um sentimento de desvalorização que não pode ser ignorado.

Esse descontentamento, contudo, não deve conduzir a decisões que, embora pareçam firmes no curto prazo, possam enfraquecer toda a categoria no futuro. É exatamente esse o risco representado pela proposta de desfiliação do SITRAEMG da FENAJUFE.

Toda organização democrática convive com divergências. Uma federação nacional não existe para representar apenas a vontade da maioria circunstancial de um estado, mas para harmonizar interesses de uma categoria complexa, formada por técnicos, analistas, oficiais de justiça e diversos outros segmentos. É natural que nem todas as decisões agradem a todos. O que não parece razoável é transformar uma divergência política em ruptura institucional.

A proposta de desfiliação parte de um raciocínio simples: se a Federação não apoia integralmente determinada pauta, deve ser abandonada. Mas essa lógica ignora uma questão elementar da política: influência se exerce de dentro das instituições, e não à margem delas. Quem deixa a mesa de negociação abre mão de participar das decisões que continuarão sendo tomadas.

É importante lembrar que a carreira do Poder Judiciário da União é nacional. Nenhuma alteração remuneratória relevante será decidida em Minas Gerais. As mudanças dependem de articulação junto aos tribunais superiores, ao Congresso Nacional e ao Poder Executivo. São ambientes em que a representação coletiva faz enorme diferença. Nenhum sindicato estadual, por mais combativo que seja, possui isoladamente o mesmo peso político de uma federação nacional que congrega entidades de todo o país.

A FENAJUFE pode ser criticada. Deve ser cobrada. Suas posições podem — e muitas vezes devem — ser contestadas. Isso faz parte da democracia sindical. O que não parece estratégico é abandonar justamente o espaço onde essas disputas políticas acontecem. Desfiliar-se significa trocar o direito de influenciar por dentro pela expectativa de ser ouvido do lado de fora.

Também merece reflexão o momento político vivido pelo próprio sindicato. A vitória eleitoral da chapa identificada com a pauta dos técnicos é plenamente legítima e decorre da vontade soberana da maioria dos filiados. Contudo, uma diretoria sindical não representa apenas aqueles que a elegeram. Representa toda a categoria. Isso inclui os analistas, que possuem preocupações legítimas quanto à preservação da identidade de sua carreira, assim como inclui os técnicos, que buscam reconhecimento e valorização profissional.

Essa responsabilidade exige decisões que transcendam interesses momentâneos. Um sindicato existe para ampliar a capacidade de negociação dos trabalhadores, não para reduzir seus espaços de interlocução institucional. Quando uma entidade rompe com a principal organização nacional da categoria, a consequência mais provável não é o fortalecimento de sua voz, mas a diminuição de sua influência.

Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado. A fragmentação interessa muito mais ao poder público do que aos servidores. Uma categoria dividida negocia pior, mobiliza menos e encontra maiores dificuldades para construir consensos em torno de pautas comuns. Ao longo da história do serviço público, as maiores conquistas surgiram quando diferentes segmentos compreenderam que suas diferenças internas não poderiam superar seus interesses coletivos.

Isso não significa ignorar a pauta dos técnicos nem minimizar sua importância. Ao contrário. Se a reivindicação por uma reestruturação da carreira é legítima, ela precisa ser defendida com inteligência política. E inteligência política consiste em ampliar alianças, fortalecer canais de negociação e ocupar os espaços institucionais disponíveis — nunca em abandoná-los.

A permanência na FENAJUFE não exige concordância irrestrita com todas as suas deliberações. Exige apenas o reconhecimento de uma verdade simples: nenhuma entidade nacional melhora quando aqueles que desejam transformá-la decidem deixá-la. Instituições evoluem quando seus integrantes permanecem, debatem, convencem, constroem maiorias e disputam legitimamente seus rumos.

O verdadeiro desafio dos servidores do Judiciário não é decidir entre técnicos e analistas, nem entre sindicato e federação. O desafio é preservar a unidade necessária para enfrentar restrições orçamentárias, defender a valorização das carreiras e fortalecer o serviço público perante um cenário político cada vez mais complexo.

A história ensina que categorias unidas conquistam mais. Categorias fragmentadas apenas facilitam a vida de quem prefere negociar com interlocutores enfraquecidos. Antes de romper pontes construídas ao longo de décadas, talvez seja mais prudente perguntar: a quem, de fato, interessa uma categoria nacional dividida?

Cláudio Castro de Oliveira é recém aposentado da Vara de Trabalho de Gataguazes, após 33 anos de serviço, 20 deles como técnico e depois analista.

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, as ideias ou opiniões da Fenajufe.

A insatisfação de parcela significativa dos técnicos judiciários é legítima. Poucos temas mobilizam tanto os servidores do Poder Judiciário da União quanto a discussão sobre a reestruturação da carreira. A exigência de nível superior para ingresso no cargo de técnico, aliada à percepção de que muitos desempenham atribuições de elevada complexidade, alimentou um sentimento de desvalorização que não pode ser ignorado.

Esse descontentamento, contudo, não deve conduzir a decisões que, embora pareçam firmes no curto prazo, possam enfraquecer toda a categoria no futuro. É exatamente esse o risco representado pela proposta de desfiliação do SITRAEMG da FENAJUFE.

Toda organização democrática convive com divergências. Uma federação nacional não existe para representar apenas a vontade da maioria circunstancial de um estado, mas para harmonizar interesses de uma categoria complexa, formada por técnicos, analistas, oficiais de justiça e diversos outros segmentos. É natural que nem todas as decisões agradem a todos. O que não parece razoável é transformar uma divergência política em ruptura institucional.

A proposta de desfiliação parte de um raciocínio simples: se a Federação não apoia integralmente determinada pauta, deve ser abandonada. Mas essa lógica ignora uma questão elementar da política: influência se exerce de dentro das instituições, e não à margem delas. Quem deixa a mesa de negociação abre mão de participar das decisões que continuarão sendo tomadas.

É importante lembrar que a carreira do Poder Judiciário da União é nacional. Nenhuma alteração remuneratória relevante será decidida em Minas Gerais. As mudanças dependem de articulação junto aos tribunais superiores, ao Congresso Nacional e ao Poder Executivo. São ambientes em que a representação coletiva faz enorme diferença. Nenhum sindicato estadual, por mais combativo que seja, possui isoladamente o mesmo peso político de uma federação nacional que congrega entidades de todo o país.

A FENAJUFE pode ser criticada. Deve ser cobrada. Suas posições podem — e muitas vezes devem — ser contestadas. Isso faz parte da democracia sindical. O que não parece estratégico é abandonar justamente o espaço onde essas disputas políticas acontecem. Desfiliar-se significa trocar o direito de influenciar por dentro pela expectativa de ser ouvido do lado de fora.

Também merece reflexão o momento político vivido pelo próprio sindicato. A vitória eleitoral da chapa identificada com a pauta dos técnicos é plenamente legítima e decorre da vontade soberana da maioria dos filiados. Contudo, uma diretoria sindical não representa apenas aqueles que a elegeram. Representa toda a categoria. Isso inclui os analistas, que possuem preocupações legítimas quanto à preservação da identidade de sua carreira, assim como inclui os técnicos, que buscam reconhecimento e valorização profissional.

Essa responsabilidade exige decisões que transcendam interesses momentâneos. Um sindicato existe para ampliar a capacidade de negociação dos trabalhadores, não para reduzir seus espaços de interlocução institucional. Quando uma entidade rompe com a principal organização nacional da categoria, a consequência mais provável não é o fortalecimento de sua voz, mas a diminuição de sua influência.

Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado. A fragmentação interessa muito mais ao poder público do que aos servidores. Uma categoria dividida negocia pior, mobiliza menos e encontra maiores dificuldades para construir consensos em torno de pautas comuns. Ao longo da história do serviço público, as maiores conquistas surgiram quando diferentes segmentos compreenderam que suas diferenças internas não poderiam superar seus interesses coletivos.

Isso não significa ignorar a pauta dos técnicos nem minimizar sua importância. Ao contrário. Se a reivindicação por uma reestruturação da carreira é legítima, ela precisa ser defendida com inteligência política. E inteligência política consiste em ampliar alianças, fortalecer canais de negociação e ocupar os espaços institucionais disponíveis — nunca em abandoná-los.

A permanência na FENAJUFE não exige concordância irrestrita com todas as suas deliberações. Exige apenas o reconhecimento de uma verdade simples: nenhuma entidade nacional melhora quando aqueles que desejam transformá-la decidem deixá-la. Instituições evoluem quando seus integrantes permanecem, debatem, convencem, constroem maiorias e disputam legitimamente seus rumos.

O verdadeiro desafio dos servidores do Judiciário não é decidir entre técnicos e analistas, nem entre sindicato e federação. O desafio é preservar a unidade necessária para enfrentar restrições orçamentárias, defender a valorização das carreiras e fortalecer o serviço público perante um cenário político cada vez mais complexo.

A história ensina que categorias unidas conquistam mais. Categorias fragmentadas apenas facilitam a vida de quem prefere negociar com interlocutores enfraquecidos. Antes de romper pontes construídas ao longo de décadas, talvez seja mais prudente perguntar: a quem, de fato, interessa uma categoria nacional dividida?

Cláudio Castro de Oliveira é recém aposentado da Vara de Trabalho de Gataguazes, após 33 anos de serviço, 20 deles como técnico e depois analista.

Artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, as ideias ou opiniões da Fenajufe.