Mês de luta contra a discriminação racial

Por Maria do Amparo*

Aproveite esta data para refletir: onde está o meu racismo?

Esta frase, que ouvi num programa da TV Educativa há uns 30 anos, foi muito importante para iniciar as minhas reflexões sobre racismo, num momento em que este debate não era efervescente como hoje. Desejo que esta questão provo que você também!

Neste programa, um repórter entrevistava as pessoas na rua e elas respondiam: o meu racismo está quando vejo uma pessoa preta entrar num restaurante e de imediato imagino que ela está ali para trabalhar; o meu racismo está quando vejo um menino negro numa loja e desconfio que ele vai furtar algum objeto; o meu racismo está quando cruzo com um homem negro na rua e sinto medo; o meu racismo está quando acho que o meu cabelo liso é “bom” e “mais bonito” que o cabelo crespo, “ruim”, da minha colega; o meu racismo está quando tenho vergonha de usar a palavra negro e digo que o meu colega é “escuro”, ou “moreno escuro”.

No Brasil, não vivenciamos o apartheid social explícito como em outros países. Aqui é justamente a naturalização de ações, falas, pensamentos, situações e hábitos que promovem direta ou indiretamente a segregação ou o preconceito racial. Ao longo de séculos foi se construindo uma positividade ligada às pessoas brancas, um imaginário social de competência, beleza, pureza, confiabilidade e superioridade, em oposição aos negros, que atinge dura e diariamente a população de pretos e pardos. Mesmo quando dividem o mesmo espaço que brancos, os pretos e pardos são colocados numa posição de subalternidade.

O advérbio onde na frase formulada pelo repórter é importante, porque nos faz refletir que o racismo está encoberto. Outras pessoas se assustavam com a pergunta e respondiam: “racismo? O meu racismo? Eu não sou racista”. Estas respostas nos mostram outra dimensão do racismo que é a de cultivar, no Brasil, a concepção de que vivemos uma democracia racial, propagando o discurso da existência de uma relação harmoniosa e igualitária entre brancos e negros, o que não corresponde às situações concretas que a população negra vivencia. É o lado perverso do racismo, o preconceito velado, despercebido até mesmo pelos próprios racistas. Assim, vamos vivendo nossas vidas confortavelmente, achando normal o segurança seguir um jovem negro numa loja.

O Brasil foi o país a escravizar o maior número de africanos e a última nação das Américas a abolir a escravidão. Na época de sua promulgação, apesar de haver um plano, formulado por movimentos abolicionistas, voltado para a integração do ex-escravo na sociedade brasileira, a mão de obra negra foi rapidamente substituída pela dos imigrantes europeus, e os brasileiros de origem africana foram abandonados à própria sorte. Foram expulsos de seu lugar geográfico e mantidos no lugar social de exclusão.

O racismo não é individual e é mais do que a cor da pele. Refere-se ao lugar social que ocupam pardos e pretos no nosso país, lugar este de exploração e de ausência nos espaços de poder e decisão. Como nos diz o professor, advogado e filósofo Sílvio de Almeida, “o racismo é sempre estrutural, ou seja, integra a organização econômica e política de forma inescapável… é a manifestação normal de uma sociedade, e não um fenômeno patológico ou que expressa algum tipo de anormalidade. O racismo fornece o sentido, a lógica e a tecnologia para a reprodução das formas de desigualdade e violência que moldam a vida social contemporânea”.

O dia 21 de março foi instituído, pela ONU, como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, em memória à tragédia ocorrida em 1960, na cidade de Joanesburgo, capital da África do Sul, quando 20 mil negros protestavam contra a lei do passe, que os obrigava a portar cartões de identificação, especificando os locais por onde eles podiam circular. No bairro de Shaperville, os manifestantes se depararam com tropas do exército.

Mesmo sendo uma manifestação pacífica, o exército atirou sobre a multidão, matando 69 pessoas e ferindo outras 186. Esta ação ficou conhecida como o Massacre de Shaperville.

No Brasil, os massacres são diários. É só observarmos os nossos indicadores de saúde, moradia e trabalho para percebermos as desigualdades sociais entre brancos e pretos/pardos; a violência policial contra jovens negros; o encarceramento em massa de pretos e pardos; os ataques às religiões de matriz africana, ameaçando seu direito de existir.

Por outro lado, temos as conquistas do movimento negro, como as cotas nas universidades, nos concursos e nas eleições; no judiciário, os debates sobre questões raciais (vide o Relatório do CNJ Igualdade Racial no Judiciário) e a criação, na nossa SJRJ, do Grupo de Trabalho sobre Igualdade Racial. Temos o ativismo de intelectuais negros com farta produção acadêmica, importante para estudarmos e refletirmos sobre o lugar que ocupamos nesta estrutura social desigual separada por raças, que afeta não só os negros, mas também os brancos que foram socializados com senso de superioridade, medo e culpa e se beneficiam desta estrutura racista.

Que este 21 de março seja de reflexão e chamamento para esta luta que é de todos, independentemente da sua cor.

*Maria do Amparo Vieira de Sousa é analista judiciária/Serviço Social SESAU

Fontes:

ALMEIDA, Sílvio. Racismo estrutural. Coleção Feminismos Plurais. São Paulo: Sueli Carneiro; Editora Jandaíra, 2020.

GELEDÉS INSTITUTO DA MULHER NEGRA: www.geledes.org.br

A RESPONSABILIDADE SOCIAL DE CADA PELA IGUALDADE DE TODOS. Sueli Carneiro e Neca Setubal. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=UUC7U1HtnYA

RACISMO, COISA DE BRANCO. Tempero Drag. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=eBfw2WqNDj0 

 

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