LUTO:Rogério Dornelles; uma trajetória em defesa da saúde e dos direitos da classe trabalhadora

Hoje, perdemos um dos grandes. Um grande profissional, um grande lutador, que nunca teve receio em afirmar que tinha lado, o lado da classe trabalhadora.

O médico do trabalho Rogério Dornelles, da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, faleceu, na madrugada desta segunda-feira, 31, aos 63 anos. Ele vinha tratando um câncer de pulmão, cujo quadro se agravou em abril.

Rogério começou a faculdade de Medicina na década de 1970, período no qual participou da militância política e estudantil. Formou-se em 1986, especializou-se em Medicina do Trabalho e desenvolveu sua carreira unindo a medicina com a formação política e a militância, a partir do entendimento do papel central da saúde do trabalhador na luta geral da classe.

Nos diversos depoimentos colhidos pelo Sintrajufe/RS sobre o médico, as pessoas destacam a maneira tranquila de falar, a generosidade, a escuta e o acolhimento. E também sua firmeza nos posicionamentos, a determinação e a capacidade de se indignar com a opressão, a exploração, a injustiça.

Sua trajetória inclui o trabalho em diversos sindicatos. Além de atendimentos a trabalhadores e trabalhadoras, realizou cursos na base de diversas categorias e para lideranças sindicais, fez palestras, organizou grupos e eventos que tratavam, entre outros assuntos, de prevenção de acidentes, garantia de direitos, proteção à saúde. Um dos resultados foi a criação do Fórum Sindical de Saúde do Trabalhador (FSST), um espaço que reúne entidades de diversos setores e profissionais para pensar a saúde no trabalho de maneira ampla e interdisciplinar.

A parceria com o sindicato começou no final dos anos 1990, no Sindjusfe, uma das entidades que dariam origem ao Sintrajufe/RS. Rogério participou dos primeiros estudos apontando os efeitos dos processos eletrônicos, do aumento de metas e cobranças por produtividade sobre a saúde física e mental de servidores e servidoras do Judiciário Federal. Foi um dos responsáveis por várias pesquisas de saúde realizadas pelo sindicato. Era uma referência sobre o assunto, sendo convidado a prestar consultoria e fazer palestras em diversos estados.

O Sintrajufe/RS buscou o depoimento de pessoas que trabalharam, militaram e conviveram com Rogério. Veja abaixo

“Rogério Dornelles foi um médico que soube honrar o juramento que fez na formatura. Dedicou sua vida a buscar a justiça social e o fim da exploração no trabalho. Foi um profissional exemplar e que fará muita falta a todos. Agradecemos por tudo o que fez!”

(Álvaro Merlo, médico e professor de Medicina na Ufrgs)

“Tive a oportunidade de conhecer o médico Rogério Dornelles ao longo da minha militância na base da categoria na Justiça do Trabalho. Agora, como diretora do Sintrajufe/RS, convivi com um mestre, um professor, um companheiro de lutas. Em diversas oportunidades, debateu de forma didática dados técnicos e argumentos médicos em defesa da vida das trabalhadoras e dos trabalhadores, em meio à pandemia da Covid-19. Serei eternamente grata pelo apoio, pela disposição, pela paciência e pelo carinho. Conviver contigo foi um grande aprendizado. Obrigada, Dr. Rogério Dornelles.”

(Arlene Barcellos, diretora Sintrajufe/RS)

“Trabalhar com o querido Rogério era compartilhar, a cada reunião, de uma aula de humanidade, sensibilidade, acolhimento e indignação transbordantes!”

(Cristina Viana, diretora do Sintrajufe/RS)

“Rogério foi um cidadão estratégico na inserção do Sindifars e CTB-RS no FSST. Sempre parceiro, nos chamando para as atividades e debates. Profissional e militante na defesa da saúde dos trabalhadores e das vidas. Sentiremos muito sua falta. Rogério, presente!”

(Débora Melecchi, presidente do Sindifars, diretora de Saúde da CTB-RS)

“Um querido… sempre pronto pra escutar os amigos… vai fazer falta… vai em paz amigo…”

(Denise Elias, aposentada da JT, ex-diretora do Sintrajufe/RS)

“Tive o privilégio de conhecer e trabalhar com o Rogério no início dos anos 2000, quando comecei a participar do Coletivo de Saúde criado pelo Sintrajufe. Junto com a Silvana Klein, organizamos e aplicamos a 1ª pesquisa de saúde junto à categoria! Sua generosidade, acolhimento, sensatez, gentileza e parceria vão fazer muita falta! Se tivesse que defini-lo em uma frase, diria que ele foi aquela pessoa que todos gostariam de ter por perto! Levarei pra sempre o muito que aprendi com ele! Minha eterna admiração e carinho.”

(Denise Grass, aposentada da JT)

“O Rogério foi mais que um médico do trabalho. Foi um ouvinte, um ombro amigo. Sempre preocupado com o bem-estar de todos. Aqui em Passo Fundo esteve presente para a solução de algumas questões, entre elas a busca dos ajustes necessários à implantação da ergonomia. Seu legado fica em nosso dia a dia e sua amizade jamais será esquecida em nossos corações.”

(Elisa Tassi, JF Passo Fundo, ex-diretora do Sintrajufe/RS)

“Fiquei muito triste com a notícia do falecimento do Dr. Rogério. Com certeza uma grande perda tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal. Há alguns anos ele acolheu e me assessorou pelo sindicato num caso de assédio moral, ocasião em que foi extremamente atencioso, profissional e sensível ao meu problema da época que, agora tenho consciência, é uma causa coletiva. E ele sabia muito bem disso!”

(Gládis Lorinda Ludwig, aposentada JT)

“Dr. Rogério foi um médico que via o trabalho como um lugar que deveria ser saudável, e não penoso; e as doenças relacionadas ao trabalho deveriam ser reconhecidas e tratadas pelas empresas. Enfim, era um médico defensor do trabalho decente.”

(Isis Marques, diretora do Sindbancários/Porto Alegre)

Em nome do Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário Federal nos Estados do Pará e Amapá – Sindjuf/PA-AP, gostaríamos de apresentar nossos pêsames à família do nosso companheiro Rogério Dornelles, um grande profissional que contribuiu imensamente com as lutas da nossa categoria, na construção de nossas pautas relacionadas à saúde dos trabalhadores. Dr. Dornelles sempre atendeu de forma generosa nossos convites, mesmo tendo que atravessar o país de ponta a ponta pra vir ao norte contribuir com nossos debates. Hoje as principais lideranças da nossa entidade lamentaram essa imensa perda; por isso sempre será lembrado. Companheiro Dornelles, presente sempre”

(José Ribamar, Sindjuf/PA-AP)

“Rogério e sua trajetória na defesa da saúde dos trabalhadores e do movimento sindical permanecerão registrados na história, pela sua dedicação e comprometimento na conquista de direitos da classe trabalhadora.”

(Juliana Moura, pesquisadora da Fiocruz)

“Rogério viveu com grande dignidade e firmeza na luta pela saúde da classe trabalhadora. Foi e continua sendo aquele exemplo de firmeza na luta e muita ternura no coração. Pra mim, foi amigo, professor, farol, consciência, afeto, solidariedade. Meu coração está partido, mas firme e cheio da esperança e da força que o Rogério semeava. Vamos seguir a luta dele pela saúde das trabalhadoras e dos trabalhadores, pelo fim deste governo assassino e por um futuro bom e justo para o Brasil. Vai em paz, meu amigo, porque a tua semeadura brota na luta por justiça em muitos corações. E tu estarás em nós sempre. Rogério presente!”

(Mara Weber, diretora do Sintrajufe/RS)

“Rogério dedicou sua vida militante e profissional à classe trabalhadora. Militava por um novo mundo, em que o trabalho não fosse causador de sofrimento e adoecimento. Como médico, ajudou os trabalhadores a adquirirem consciência e mostrou que a luta por melhores condições de trabalho tem tanta importância como a luta por salários e direitos. Prosseguir a sua luta é o que honra pessoas que como ele, combatem uma vida inteira por um mundo sem opressão e sofrimento.”

(Marcelo Carlini, diretor do Sintrajufe/RS)

“Conheci o Rogério há cerca de 20 anos, durante um evento em São Paulo, cujo objetivo era a defesa da saúde dos trabalhadores. Desde aquele momento, nos tornamos grandes amigos, e passei a admirá-lo muito, pois percebi imediatamente que estava em frente a um grande ser humano. Aliás, se fosse resumir brevemente o Rogério, eu logo diria: uma pessoa digna, honesta e solidária. Rogério, companheiro de lutas e amigo do coração, sua luta e sua memória seguirão muito vivas entre nós.”

(Roberto Ruiz, médico do trabalho. Florianópolis, SC)

“Falo em nome do coletivo de saúde do Semapi. O dr. Rogério vinha trabalhando conosco há um ano e meio. E nesse período ele fez a diferença no nosso pensar e agir como dirigentes e seres humanos, como poucos educadores conseguem. Com sua habilidade de escuta muito grande e suas palavras profundamente humanas e sábias nos motivava a pensar e agir em busca da saúde dos trabalhadores e na nossa postura como dirigentes. Cada contribuição dele, falava na hora certa, nos fazendo refletir antes de agir. Estamos muito tristes com a perda dele. Rogério presente.”

(Rossana Ramos, diretora do Semapi)

“É com muita tristeza e dor na alma que me despeço do Rogério Dornelles. A importância do Rogério para mim e para o Sisejufe é incomensurável. Há mais de 10 anos esse médico fantástico nos levava a ponderar e observar os perigos do avanço desproporcional da carga de trabalho sobre a nossa capacidade de uma jornada produtiva. Rogério avaliava o impacto do adoecimento, do sofrimento mental e da invisibilidade das nossas fragilidades e complexidades tipicas do ser humano, frente ao avanço tecnológico sem compromisso com a qualidade de vida.

 Com ele o Sisejufe deu seus passos mais seguros no mapeamento da saúde dos servidores. Rogério era essencialmente um humanista a frete dos seu tempo. Seu legado nos sustentará na luta contra os abusos, contra a desumanização das relações de trabalho. Até qualquer hora grande mestre. Rogério Dornelles presente!” (Vera Miranda, assessora política do Sisejufe/RJ)

“Mesmo com uma dor profunda e uma vontade de ficar recolhida, quero falar um pouquinho sobre o meu querido amigo Rogério, que partiu hoje, nos deixando uma tristeza profunda. Nos conhecemos no ambulatório de doenças do trabalho do HCPA, em 1997. Ali nascia uma amizade e uma caminhada sonhada e compartilhada em defesa da saúde d@s trabalhador@s e de um mundo mais justo.

Fomos colegas no trabalho de assessoria a vários sindicatos, parceiros na organização de tantos eventos e mobilizações, ajudamos a construir o FSST. Também tivemos uma convivência intensa de amizade e encontros junto com nossas famílias e amigos. O Rogério sempre foi uma liderança, brilhava ao falar em público e transbordava sabedoria e generosidade. Querido amigo, vá em paz, fizeste diferença neste plano e fará muita falta mesmo! Se existir mesmo o “céu”, logo estarás agitando por lá! Te amo para sempre amigo!”

(Virginia Dapper, médica do trabalho e da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS)

“É muito difícil escrever neste momento, a tristeza é enorme. A minha trajetória sindical, desde o Sindijusfe (sindicato que representava os e as colegas da Justiça Federal), lá na década de 90, até o Sintrajufe, se confunde, em praticamente todo esse período, com a parceria do Rogério Dornelles. O que entendo sobre saúde do trabalhador/a, inclusive no enfrentamento à dura realidade do mundo que vivemos e à trágica exploração capitalista, das situações de assédio na nossa categoria, tem o aprendizado dos ensinamentos do Rogério. Mas, como se isso não bastasse, para além dessa capacidade, em todo esse processo, era lindo e emocionante ver a humanidade, o carinho e a disponibilidade dele em compartilhar seu conhecimento com as pessoas. Perdemos um companheiro de lutas hoje, eu também perco um amigo. Um abraço grande a toda família do Rogério.”

(Zé Oliveira, diretor do Sintrajufe/RS)

Amigo de décadas, médico faz homenagem a Rogério Dornelles

Geraldo Azevedo, médico do trabalho e integrante da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS, atuou com Rogério Dornelles em diversos projetos e assessorias. Mais do que colegas, foram amigos, por mais de 40 anos. O Sintrajufe/RS reproduz abaixo o texto escrito por Geraldo nesta madrugada, um desabafo feito logo depois que soube da notícia do falecimento.

Meu querido irmão,

É difícil a gente se conformar com tua partida tão precoce. Não parece verdade. Todo mundo se habituou com tua liderança, a extraordinária capacidade de ver as coisas antes da gente, teu afeto que transbordava, a solidariedade gigante, o amor pelos próximos e pelos distantes. Lembro daquela vez – uma das tantas que saímos do Sintrajufe e passamos conversando sobre tantas coisas – em que paramos o carro no meio da Ipiranga num final de tarde, e colocaste tua vida em risco no meio daquela correria para abraçar uma moradora de rua e levá-la em segurança ao outro lado da pista. Uma dessas pessoas que, quando chega perto, muita gente ergue os vidros do carro para não ouvir, não sentir o cheiro, fingir que não existe.

Sempre foste atento, atencioso, sempre perguntavas como as pessoas se sentiam, tu as ouvias e as ajudavas. Fizeste isso sempre. A vida vai ser muito mais difícil pra todas e todos nós. Quando Aldir Blanc – outro gigante – nos deixou no ano passado, seu parceiro de sempre, João Bosco, fez uma terna homenagem, e disse que tinha mais razões que antes para cruzar este nosso país cantando suas canções. Nós faremos isso também. E se me permites uma canção, de um outro Geraldo, acho que serve bem para mostrar como tudo foi nesses mais de 40 anos

Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza

Pra só trazer alegrias

E não falar de pobreza

E mais, prometeram que se cantasse feliz

Agradava com certeza

Eu que não posso enganar

Misturo tudo que vi

Canto sem competidor

Partindo da natureza do lugar onde nasci

Faço versos com clareza

Na rima, belo e tristeza

Não separo dor de amor

Deixo claro que a firmeza do meu canto

Vem da certeza que tenho

De que o poder que cresce sobre a pobreza

E faz dos fracos riqueza

Foi que me fez cantador

Seguiremos aqui, meu irmão, cantando as nossas canções também. Com coros de crianças, de velhos, de famintos, de moradores de rua, de assediadas, de discriminadas. Iremos de mãos dadas com nosso povo. Beijo, mano. E obrigado por tudo.

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